domingo, 10 de março de 2013

BEBER-TE

                                                                       
                                                         à minha Rosa,
                                                                           Rosely                     
     

Vinho branco...vinho branco
das parreiras e videiras do nordeste
és meu saboroso trago branco
que aquela terra um dia me deste

E esses olhos são pequenas bolhinhas de vidro
repletas de vinho branco
Sua carne é o meu pão branco suculento,
eu sou o glutão da sua estirpe
quero cada gota da sua bebida de amor
quero cada exalar do teu cheiro núbil
para mim

Somente para mim
esposa minha - criança intempestiva -
mulher minha, bebida fina que me seduz o sangue
Meu vinho doce e branco que me embriaga
sem perder o sentido do desejo

Meu vinho doce e branco
das parreiras e videiras do nordeste,
lugar árido
que vindima apaixonante me trouxeste


                                                                     Morpheus

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O ASSALTO


  Seis e trinta e quatro da manhã.
  Um chuvisqueiro manso acariciava os telhados da cidade anônima enquanto a luz do sol começava a imiscuir-se em finos feixes dourados por entre os ralos pingos de chuva trazendo um novo dia.  Poucas pessoas perambulavam pelas ruas àquela hora.  Eram ruas soturnas do centro industrial de uma pequena cidade qualquer do interior onde coisas sem importancia costumam acontecer o tempo todo.  Ruas onde se pode caminhar tranquilamente sem se dar conta das coisas ao redor.  E entre as poucas pessoas que caminhavam por ali àquela hora; a figura obscura de um homem nos revelará que a coragem nem sempre conduz à vitória e ao sucesso.  Caminhava de cabeça baixa mas não de modo subserviente; metido numa capa de chuva preta e usando um boné preto sem estampa ele era apenas uma sombra, um espectro.  Na cintura trazia oculto um trinta e oito prateado.  Parecia sereno, taciturno.  Flanava.  Mas tinha o coração convulso e uma mente atormentada.  Estava prestes a praticar algo novo, algo que nunca antes praticara na vida.  A demora o deixava ainda mais nervoso, pois teria de esperar ainda cerca de trinta minutos até que finalmente começasse a colocar em prática seu plano.  Passara a noite em claro, pensando, planejando, imaginando como faria.
  Entrou numa padaria que acabara de abrir as portas; fazia frio, uma mulher baixa e meio gorda veio do outro lado do balcão:
 - Pois não.
 - Um café preto - pediu com a voz rouca.
  A mulher o serviu:
 - Mais alguma coisa?
 - Não, obrigado.
  Pegou o copo e tomou um gole assoprando:
 - Quanto é?
 - Cinquenta centavos.
  Meteu a mão no bolso.  Tirou umas moedas.  Contou e colocou sobre o balcão.  Depois tomou outro pequeno gole e pediu um fósforo.  Ela trouxe.  Ele acendeu um cigarro, colocou a caixa de fósforos sobre o balcão e saiu deixando um restinho de café no fundo do copo.
  Andou mais alguns metros calmamente até que a chuva começou a engrossar e ele parou debaixo do toldo de uma lojinha que ainda estava fechada.  Olhou no relógio: seis e quarenta e três, restavam pouco mais de quinze minutos agora.  A chuva engrossava ainda mais e por um momento ele pensou realmente em desistir.  Olhou ao redor e contemplou a desolação da manhã chuvosa, as pessoas dormiam.  E ele estava ali.  O que é que estava fazendo ali?  De repente enterneceu-se com lembranças.  Ao sair de casa deixara mulher e três filhos dormindo.  Dormindo como todas as pessoas que costumam dormir nestas manhãs chuvosas e preguiçosas.  Ao mesmo tempo pensava que o golpe que estava para dar seria justificado exatamente por causa deles, para o conforto deles e, ao mesmo tempo, lá no fundo de seu ser algo que lhe dizia que isso era apenas uma desculpa boba que havia inventado para justificar uma atitude miserável e errônea.  Mas isto era algo que ele ignorava.  A revolta que sentia se sobre punha a isto.  A revolta era mais forte.  Não suporta mais ver seu filho caçula olhando para a televisão e sonhando com brinquedos que ele jamais poderia dar.  Não suportava mais ver sua filha mais velha de treze anos vir ao seu encontro, quando ele voltava para casa, perguntando-lhe aflita se ele finalmente tinha conseguido o tão sonhado emprego, se tinha conseguido marcar uma entrevista, se ele tinha conseguido encontrar uma esperança em algum lugar.  E então tudo que lhe restava era abaixar a cabeça com gravidade e dizer que não.  Talvez não fosse mesmo a repetição desta cena que o fizesse sofrer tanto, mas talvez ele estivesse se revoltando contra uma coisa muito maior.  Ás vezes ele sentia isso, mas não entendia muito bem o que se passava.  Era como se estivesse se revoltando contra uma coisa que estava nas ruas por onde andava ou nos noticiários do horário nobre.  Alguma coisa dentro dele não o deixava em paz.  Alguma coisa o fazia sentir-se de mãos atadas diante dessa coisa que chamavam possivelmente de desigualdade social.  Mas o que era isso?  Ás vezes chorava escondido num canto qualquer da casa, mas chorava de revolta que roía todo seu ser.  Também havia momentos em que pensava que as coisa poderiam realmente mudar, talvez com um pouco de sorte e a ajuda de Deus.
  Sua vida não tinha, até aquele momento, sido muito diferente da vida da maioria da população excluída.  Nascera negro numa favela populosa, crescera pobre e acostumado a privações.  Concluiu os estudos até onde pôde e até onde suportou e isto significava a quinta série.  Começou a trabalhar numa pequena fábrica perto de sua casa e a enveredar-se pelos caminhos da embriaguez e da noite.  Na adolescência fumou muita maconha, cheirou muita cocaína, bebeu, fez arruaça, se envolveu em algumas brigas até que; certa noite num pagode na favela vizinha conheceu Irene.  Ela era mesmo uma louraça de virar a cabeça de qualquer um , tinha seios grandes mas não exagerados, pernas grossas e bem torneadas, era alta e tinha um rosto pueril, porém um jeito de olhar e uma voz de mulher madura.  Irene sambava como uma negra pois também trazia a África no sangue.  Irene sambava como ninguém e chamava a atenção de todos.  Tamanha foi sua surpresa quando ela o encarou de longe rebolando ao som do batuque e piscou.  Piscou logo para ele, um pé rapado que, como dizem, nem tinha onde cair morto.  Depois conheceram-se e em quatro meses de namoro ela engravidou.  Então casaram-se e foram morar em dois cômodos nos fundos da casa dos pais de Irene.  Aquela tinha sido uma boa época e ele se lembrava com saudades daquele tempo em que trabalhava o dia todo como soldador na fábrica e ao final da tarde vinha para casa, para sua mulher, para sua Irene.  Vez ou outra passava no bar, tomava umas cervejas e até fumava um baseado com os malucos.  Mas logo as dívidas começaram a se acumular ao mesmo tempo em que chegava o segundo filho e os desentendimentos com a família de Irene.  Então ele alugou uma casa pequena de três cômodos e foi fazer a vida, cuidar da sua própria família.  Um ano e meio depois vinha o terceiro filho e a demissão do emprego que caira sobre sua cabeça como um balde de água gelada.  Tiveram que voltar a morar na casa dos pais de Irene por que uma crise nas indústrias o tornara mais um entre os milhões de desempregados que se espalhavam por todo o país.  E ele era apenas isso, um ponto na estatística.  Foi humilhante para ele ter que voltar para aquela casa engolindo todo seu orguho e aceitando aquela situação.  Depois trabalhou como servente de pedreiro, ajudante de pintor, cabo eleitoral até conseguir um novo emprego numa outra fábrica como ajudante geral ganhando metade do que ganhava outrora como soldador.  Todo dia comer arroz, feijão e ovo (quando tinha ovo) não fora isso o que esperava da vida.  Na verdade tinha sonhos.  Tinha ambições de realizar muitas coisas, ficar rico.  Mas acabou sendo demitido outra vez e então a situação acabou sendo ainda mais humilhante.  Ter de ser sustentado pela mulher, aceitar a comida, o teto e os caprichos da sogra e do sogro.
  - A fita é fazê um adianto aí parcero!  Tô ligado que cê tem apetite po baguio mano! - dizia-lhe Neneco quando ele ia se queixar ao amigo.  E coragem ele tinha mesmo, mas sabia que esse não era o caminho.  Tentava fortalecer a fé em si de que ainda teria uma chance, acreditava nisto e a agarraria com unhas e dentes se ela surgisse e então tudo mudaria.  Afinal ele tinha uma família, tinha algo que o fazia pensar antes de um cometer um ato radical e perigoso.
  Irene era manicure e o pouco que ganhava os sustentava.  Irene era feliz e não se importava muito com privações por que também jamais conhecera o luxo na vida.  Ela não tinha muitas pretensões e o que a preocupava, de fato, eram as companhias do marido e toda vez que ela tocava no assunto eles acabavam discutindo.
  Todos esses pensamentos e reminiscências misturavam-se em sua mente enquanto ele observava a chuva que agora tornava a diminuir.  Ele olhava para a garoa fina pensando em sua vida e refletindo sobre a maneira como tudo havia acontecido tão naturalmente que tudo parecia já ter sido pré-estabelecido antes mesmo de seu nascimento.  Entretanto, ele agora havia tomado uma decisão.  Agora ele faria o próprio destino e iria até o fim.  Se as coisas não podiam se dar da melhor maneira se dariam da pior maneira.  Se ninguém lhe concedia uma chance neste mundo cão ele mesmo criaria sua própria oportunidade, mudaria seu destino, sua vida e a de sua família, concederia a si mesmo uma nova chance.  Tomaria à força as rédeas de seu destino.  E se fosse preciso abriria o caminho à bala!  Ele mesmo abriria seu caminho na vida ainda que para isso fosse preciso matar um ou dois, ainda que tivesse que tomar na marra aquilo que precisava.
  Olhou novamente no relógio: seis e quarenta e cinco da manhã.
  Olhou para o começo da rua e avistou seu cunhado se aproximando de guarda-chuva em riste.  Olhou para o outro lado e avistou as torres da firma soltando fumaça ao longe entre alguns prédios.  Seu cunhado trabalhava na firma, era o vigia do turno da manhã e iria ser a chave de entrada para ele.  Na outra calçada vinha também um homem alto com longos cabelos claros andando meio torto e seguindo atentamente o vigia.  Era Nariga que também iria participar do assalto.
  Mas quanto mais seu cunhado se aproximva andando lentamente debaixo da chuva, mais ele pensava em desistir, mais ele pensava que não valia a pena.  E ao mesmo tempo pensava que se já tinha chegado até ali já não poderia mais desistir.  Olhou novamente no relógio: seis e cinquenta e um.  Seu coração estava disparado.  A ansiedade era imensa.  Começava a suar frio, suas mãos estavam geladas.  Até que ele não aguentou e deus uns passos na direção do cunhado para encontrá-lo logo de uma vez.  O rapaz fez uma cara de estranhamento ao vê-lo mas cumprimentou:
  - Fala aí Marcão.
  - Fala Zé.
  Zé franziu a testa, ajeitou com a mão quepe na cabeça e perguntou:
  - Tá fazendo o que aí?
  - Tô esperando a chuva passá, vim vê uns tampo aí né, mas... - click - era o ruído de uma arma sendo engatilhada por Nariga nas costas de Zé que, obviamente estava rendido.
  - Fica na boa aí Zé!  Fica tranquilo senão toma pipoco! - ameaçou Marcão sem piedade.
  - Mas que, que... cê indoidode veiz o Marc...
  - Cala a boca! - ordenou Nariga cutucando-lhe as costas com a arma.
  - O negócio é o seguinte, nóis vamo até a portaria, eu e você - falou Marcão - você vai me colocá lá dentro enquanto que os meus parça vão ficá esperando do lado de fora prá entrá depois, entendeu?
  - Mas...
  - Entendeu?
  - Entendi.
  - Então vamo, num esquece que eu tenho um cano aqui comigo e se você dé mio eu pipoco você!  Nariga cê tá ligado sua parte né.
  Nariga fez que sim com a cabeça e deixou eles se afastarem.  O plano era simples; eles entrariam na firma e encheriam um caminhão da própria firma com maquinários e matérias primas que valiam muito dinheiro; depois já tinham um receptador para transformar todo o material que conseguissem carregar em dinheiro vivo.  Nariga conhecia tudo lá dentro, pois trabalhara na firma durante um bom tempo e sabia exatamente o que, como e onde pegar.  Neneco que já os aguardava nas redondezas da firma, iria dirigir o caminhão e depois eles dividiriam tudo em partes iguais, mas eram amadores, marinheiros de primeira viagem.
  Seguiram caminhando devagar debaixo do chuvisqueiro, entraram por uma rua estreita e depois dobraram uma esquina para finalmente chegarem em frente a firma. 
  Olhando-se para os lados, de uma extremidade a outra não se poderia ver onde começava e onde terminava a imponente fábrica.  Era gigantesca com inúmeras torres soltando fumaça ao fundo.  Tinha muitas entradas e portarias mas a que serviria de entrada e que era onde seu cunhado trabalhava não era muito usada e também não era das maiores, fato que a tornava mais propícia para o delito.  Por aquela portaria poderiam roubar e sair sem chamar muita atenção, pelo menos era isso o que esperavam.  Ela tinha um grande portão mecânico azul e do lado direito um portãozinho menor com alguns degraus de pedra que conduziam até a guarita onde o vigia do turno da noite aguardava a chegada de Zé.  Ao avistá-lo junto de um homem estranho, prontamente ficou em alerta e já sacou sua arma esperando pela chegada dos dois.  E este era o ponto, os vigias não eram autorizados a utilizar-se de armas na firma de modo que Marcão jamais esperaria que o outro vigia portasse também uma pistola.  O vigia por sua vez, imediatamente farejou algo errado, pois nunca em seis anos de trabalho Zé trouxera alguém junto de si para o trabalho.  Aproximou-se da janela e abaixou as mãos escondendo a arma.  A medida em que os dois homens se aproximavam da fábrica a tensão aumentava.  O vigia queria acreditar que não havia nada de errado muito embora aquilo estivesse lhe parecendo demasiado estranho enquanto Marcão torcia para que o vigia não fosse estúpido e não tentasse nada para não ter de matá-lo.  Porém ao ver a expressão de medo no rosto pálido de Zé o vigia teve a certeza de que alguma coisa que não era boa estava por acontecer. Engatilhou a arma, engoliu em seco e ficou esperando eles chegarem até o portão.  Marcão sussurava para que Zé ficasse tranquilo e procurasse agir de forma natural:
  - Bom dia Airto - gritou Zé se aproximando com as mãos juntas ao portão.
  - Bom dia Zé - respondeu o outro já desconfiado do lado de dentro - o que esse cara tá fazendo aí junto com você?
  - Que...quem?  Esse? - gaguejou de um jeito meio estranho apontando com o dedão para trás.
  - Tem mais alguém com você?
  - E...esse aqui é o Marcos, é o meu cunhado.  Ele veio ver uns trampo aí.  Pode abrir o portão prá nóis.
  Ailton olhou desconfiado para aqueles dois homens ali parados.  Pensou em apertar o botão e desligar a trava do portão para que eles se aproximassem da guarita e eles pudessem então conversar.  Mas conteve-se e falou:
  -  Você sabe Zé, as normas da firma não permitem a entrada de estranhos sem aviso prévio.
  Zé permaneceu calado, tremendo.  Não sabia o que dizer.  Ele tinha razão, eram as normas e ele também as conhecia.  Um silêncio aterrador e uma forte tensão apoderou-se de todos eles enquanto o chuvisqueiro caia continuamente.  Marcão esticou o pescoço para encarar, por cima dos ombros de Zé, o vigia a uns cinco metros de distância dele lá na guarita.  E por um momento os dois se encararam a distancia numa espécie de reconhecimento e desafio.  Ninguém dizia uma palavra, mas o vigia já compreendera que Zé estava sendo apenas um escudo para o tal homem desconhecido que certamente deveria estar também armado.  Marcos abaixou a cabeça desviando o olhar para o chão e pensando; "que guarda mané, na certa deve tá querendo mesmo é morrer!"  Levantou de novo a cabeça e o guarda ainda o fitava com gravidade.  Olhou para trás e avistou Nariga e Neneco se aproximando no começo da rua.  Zé tremia da cabeça aos pés sem dizer palavra.  Marcos olhou através das grades do portão tentando ver o interior da fábrica com seus enormes galpões e pátios e todas aquelas torres ao longe dispersando negras nuvens de fumaça.  Abaixou novamente a cabeça e; num instante melancólico pensou como seria bom se pudesse estar ali dentro nem que fosse para pisar o chão molhado da firma, olhar para ela e ir embora.  Como seria bom se pudesse estar ali sob outras circunstâncias, como seria bom se pudesse estar ali para recomeçar a trabalhar e ter um novo começo.
  - O que eu faço? - sussurrou Zé.
  Marcos levantou a cabeça e encarou novamente o vigia, mas agora sentia raiva, uma raiva repentina.  Suas mãos suavam, sua boca estava seca, o coração disparado.  Zé tremia:
  - O que eu faço?
  Mas então nada mais foi dito.  Marcos viu o guarda saindo da guarita com o revólver em riste e então não hesitou, levou a mão à cintura para sacar sua arma e ouviu um estouro seco.
  Pá.
  Sentiu uma pontada repentina no peito, uma dor, parecia que haviam cravado um prego em seu torax.  Não consegiu esticar a mão para pegar sua arma.  Olhou para frente.  O vigia estava em pé olhando fixamente para ele com os braços esticados e seu revólver na mão, apontando para ele, soltando fumaça do cano.  Sentiu-se atordoado enquanto Zé fugia correndo.  Sentiu-se sozinho no mundo.  Seu coração se encheu de angústia, sentiu um ódio atroz ao ver o guarda ainda apontando a arma para ele.  Então todo seu ser se encheu de furor e ele disse para si mesmo: "foda-se."  Deu um passo para trás equilibrando-se com dificuldade enquanto o guarda gritava alguma coisa que ele não conseguiu entender.  Era como se tivesse ficado surdo de repente.  Num esforço sobre humano levou novamente a mão na cintura para sacar seu revólver com toda a força de seu ser injustiçado e ouviu novamente dois estouros secos.
  Pá.  Pá.
  E foi como se tivessem rasgado sua carne com um arame de fogo dilacerante numa sensação terrível e tão breve quanto pareceu-lhe eterna.  Compreendeu que fora baleado.  Estava zonzo.  Parecia-lhe de repente que havia um gancho fisgando-lhe a costela.  Sentiu uma fraqueza súbita, uma pontada no peito e caiu de costas no chão.  Não conseguia se mexer, sentia-se paralisado.  A sensação do fio de fogo queimando sua carne e invadindo a escuridão das suas entranhas veio de novo.  Era como um instante eterno mas que na verdade se passou em poucos segundos.
  Passou a mão na barriga e depois a levou até a altura dos olhos constatando o iminente sangue quente escorrendo entre os dedos outrora honrados de chefe de família.  Fechou os olhos.  Entendeu que estava morrendo.  Sentiu seu corpo gelado e o coração batendo descompassadamente e reviu novamente em pensamento a imagem de sua mão ensanguentada.  Sentia dificuldade de respirar.  Abriu os olhos, viu o céu e sentiu os pingos gelados de chuva molhando seu rosto e seu corpo.  Seu braço direito caiu de lado no chão e ele percebeu que já não conseguia movê-lo.  Não pensava em nada, apenas sentia muito frio.  Seu corpo todo estava frio, cada vez mais frio.  Deixou a cabeça pender para o lado do braço, respirando com dificuldade num estertor derradeiro.  Sentiu um gosto de sangue.  Ficou olhando sua mão ensanguentada, caída inerte no chão como um objeto sem vida e a chuva caindo sobre ela.
  Depois tudo se apagou.


                                                                                        Morpheus
  
 
 
 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O CARA MAIS TEIMOSO DO MUNDO


Eu gosto de música antiga, de preferência rock'n roll

Leio livros do século dezenove

O popular, mais do que burlesco,
me parece (a maior parte do tempo) desprezível

Eu bebo,
ás vezes bebo demais
já me droguei também
mas hoje em dia já não me drogo mais

Tenho duas filhas
que são as pessoas que mais amo no mundo
e os motivos de eu achar que a vida ainda vale a pena

Tenho milhões de amigos espalhados por aí
mas prefiro caminhar sozinho

Gosto de jogar xadrez
num país onde todos só enxergam o futebol

Acredito em Deus quando não penso em Deus

E sim, eu acredito no amor

Se eu não fosse tão casmurro ganharia mais dinheiro
mas não estou muito preocupado com isto

Não sou do tipo sociável
mas aprendi a ser diplomático quando necessário

Eu sou meio tarado, eu confesso

Paro para conversar com pessoas que não dizem o óbvio

Mantenho uma distância segura de política
mas sempre me permito o direito de criticá-la
e de me manter neutro

Ás vezes eu sinto raiva de todo o mal
que a religião já causou ao mundo
mas depois eu tomo um trago e me esqueço

Não gosto de dar satisfação de nada à ninguém

Não costumo tomar partido de nada nem de ninguém
mas se tiver que escolher prefiro estar sempre do lado dos mais fracos
das minorias
dos excluídos, dos humilhados, dos desprezados,
dos bêbados, dos drogados, dos loucos, dos indigentes, enfim...
Jamais fico do lado do patrão, jamais tomo o partido da maioria,
jamais estou do lado dos mais fortes, dos aristocratas, etc
o "não pode vencê-los então junte-se a eles"
é uma das frases mais idiotas que já ouvi
Prefiro morrer sozinho com meu rosto escondido no escuro
prefiro morrer caído na lama, jogado na sarjeta,
prefiro a subalternalidade, a simplicidade,
a companhia dos humildes
por que estes sim, eu sei, têm algo de verdadeiro
para me ensinar

E eu vou chegar exatamente onde eu quero
sem me vender para ninguém
sem bajular e nem fazer política demais

Eu ando sozinho, meu coração é feito de pedra
de um tipo de pedra que só de despedaça
diante dos sorrisos das minhas filhas

                                                                            Morpheus


domingo, 30 de dezembro de 2012

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É, o mundo é dos espertos

Mas quem disse que eu quero o mundo?

Eu preciso apenas de um cantinho
que seja apenas meu
onde eu possa cuidar do meu jardinzinho
que tem apenas três florzinhas



                                                                        Morpheus

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

SONETO PARA AS MENINAS



É na puerilidade desses gestos
e em todo o carinho com a tua irmã
onde demonstra todos teus afetos
urdindo amor como precoce tecelã

E eu, pai bobo e corujão, a observá-las;
pensador sombrio sobre esta chã
Quedo-me boquiaberto a admirá-las
com atenção de nobre uma artesã

E a neném que é tão linda e frágil
- perninhas e bracinhos sem parar
e a primogênita com ela a brincar

E esta união tão forte e estável;
Me enternece num momento e sonhar
Rima pobre que é acepção do verbo amar


                                                                                                   Morpheus

domingo, 9 de dezembro de 2012

HUMILDE RIMA


Quero falar do tempo que pertence a todos aqueles
que não subjugaram suas personalidades
nem suplantaram suas idiossincrasias
assimilando condutas de voláteis víboras que rastejam
sobre suas fezes nos cinzentos jardins onde a ironia
escorre entre devaneios

Quero falar das coisas que passam pela janela
ou do amor que tenho por ela

Quero falar das coisas do hodierno odiosas
mas que, ainda assim são valiosas
para quem não tem senão
um tempo livre e em vão

Aqui fica uma humildíssima rima
para quem se anima
a viver a vida
ainda que pareça desnutrida,
encardida,
inibida,
foragida,
escondida,
retraída
ou encolhida
em sua intrínseca razão

                                                               Morpheus

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

NOITE DE LUA

           Sentada de cócoras sobre o parapeito da janela de seu apartamento no vigésimo quinto andar, ela fumava.  Estática e nula.  Tinha a cabeça virada para o alto enquanto os olhos sequiosos de paixão observavam atentamente a brancura conspícua de seu amor flutuando no céu.  Momentos de solidão e silêncio como este pareciam-lhe eternos.  A brisa soprando leve, remexendo o tecido de sua blusa e deixando a mostra um pedacinho do bico de seu seio alvo e pequeno.  A boca borrada no canto do batom barato e sórdido.  Seus cabelos de um vermelho vivo se debatendo ao vento.  Seu rosto era o de uma menina que cresceu antes da hora, tinha uma testa pequena, sardas, belos olhos castanhos que estavam em perfeita sintonia com seu nariz fino e seus lábios carnudos.  O vento fraco lhe era agradabilíssimo embora tivesse, por vezes o pensamento tumultuado e um milhão de outros sentimentos se chocando em seu coração numa tempestade furiosa.  Ás vezes parecia pronunciar alguma coisa inaudível.  Tinha ressentimentos, rancores de várias pessoas.  Evitava outros pensamentos.  Era lacônica e sentia ódio de si própria.  Ódio por ter se tornado uma messalina cujo nome não importava a ninguém, um ódio que a oprimia muito mais quando se lembrava de que ela própria é que havia escolhido aquilo tudo, aquela vida.  Lembrava-se que no começo tudo parecera-lhe diferente e o fato de perceber o quanto havia sido tola, ingênua e idiota a torturava ainda mais.   No fundo, o problema é que ela era uma garota sensível e essa sensibilidade tão feminina a fazia sofrer muito ainda que se mostrasse sempre forte e carrancuda diante de tudo.  Seu coração batia descompassadamente, suava frio, mas não sentia medo por que muitas outras vezes já estivera sentada ali naquela posição.  Para uma pessoa que tivesse medo de altura seria terrível, mas não para ela.  No contorno dos olhos ainda trazia a maquiagem extravagante das noites perdidas que envolviam sua história dramática.  Mas quem, nestes dias de hoje, tinha tempo para ouvir histórias dramáticas e depoimentos melancólicos de uma jovem prostituta que queria apenas ser ouvida?
   Os clientes apenas a queriam com sofreguidão e urgência.  E os pagamentos eram antecipadamente efetuados para que ela tivesse a certeza de que não perderia seu tempo, aprendera isso logo no começo quando ingressara nesta profissão que agora já amaldiçoava.  Ás vezes ela se trocava por um par de sandálias, ás vezes por um almoço luxuoso e roupas novas, não tinha talento pecuniário.  Sua vida era esta mesmo, era a vida das pecadoras.  Inventara para si mesma a ideia de que tudo havia acontecido por falta de opção ou chance quando, na verdade, tudo havia sido por falta de inteligência e também em virtude de um comportamento priápico.  Mas por dentro, lá no fundo, era romântica.  Ela sofria.  Ela se entregava a audácia de sonhar com muitas outras coisas decentes, longínquas e distantes.  Mergulhava em devaneios e sonhos de uma bela família, sonhava docemente, fazia planos e imaginava as cores das paredes de sua nova casa, os móveis, os eletrodomésticos, as crianças, duas ou três ela imaginava a correrem pela casa enquanto ela preparava um saboroso bolo de laranja e todo o cheiro do bolo no forno estava pela casa, a campainha tocava um toque austero e então ela limpava as mãos no guardanapo e ia atender a porta para recepcionar as visitas e todos chegavam muito alegres e falantes e tudo era tão perfeito naquele momento, era tudo tão lindo naquele mundo que era apenas dela que ela chegava mesmo a suspirar sem perceber!  No entanto, toda vez que ela tinha que abrir as pernas novamente e fazer todas as encenações de gemidos, por que alguns exigiam tais coisas e outras mais, ela sentia o seu sonho tão bonito se desvanecer e se evaporar como fumaça no ar.  No começo se divertira, mas agora era como se esta violência a estivesse matando aos poucos.  Estava cansada.  Ia esmorecendo todo o seu vigor de mulher de vinte e poucos anos, ia se esgotando o seu humor, sua vontade de viver, todo o seu amor próprio.  Mas toda vez que podia refletir um pouco e decepcionar-se consigo mesma ela o fazia sentada sobre o parapeito de sua janela.  Era perigoso, é claro, mas talvez apenas um pouco mais fatal do que a vida que levava.  E agora, enquanto ela fumava tranquilamente e olhava para a lua com seus cabelos vermelhos esvoaçando ao vento, pensava no encontro que iria ter com seu amor lá no alto flutuando no céu entre as estrelas.
   Já há alguns dias esperava por este momento, por este dia em que completava vinte e três anos.  Já planejara tudo há algum tempo e agora finalmente se aproximava o momento em que saltaria para encontrar seu amor verdadeiro e único.
   Desde a infância sonhara com este momento, desde quando voltou seus olhos para o céu e apaixonou-se...  Lembrava-se perfeitamente daquele momento de sua infância, deitada sobre a grama com os braços abertos, olhando para o céu e se perguntando se os anjos existiam mesmo de verdade.  Mas para que perguntar sobre coisas que nunca poderia responder se tinha a lua inteira toda para ela?  Então ela olhou de forma diferente para a lua e percebeu o quanto ela era fascinante.  E foi neste dia, não se lembrava de quantos anos tinha, que fez para si mesma a promessa demasiadamente louca e apaixonada de um dia saltar para abraçá-la.  Foi uma promessa demente e infantil; mas como diz um ditado alemão, “crianças e loucos sempre dizem a verdade”.  E ela jamais se esqueceu desta promessa.  Desde então sempre que podia ela saia para ir deitar-se no quintal, naquele mesmo lugar sobre a grama onde podia ficar olhando para o céu e para a lua.  Sua mãe lhe impunha o horário das dez horas para voltar e se recolher para dormir, pois dez horas naquele sítio onde vivera com a família já era horário tardio.  Numa dessas noites em que olhava para o céu ela começou espontaneamente e; não posso deixar de dizer, inocentemente a tocar seu sexo e a descobrir-se.  Encontrou sozinha um prazer que, para ela ainda não tinha nada de imoral, ao mexer com seus dedinhos em sua vulva e em seu clitóris.  Por fim, tornou-se um hábito mesmo e quase todos os dias ela ia deitar-se sobre a grama para olhar o céu e a lua e todas aquelas estrelas e masturbar-se.  Ás vezes passava o dia todo esperando aquele momento chegar.  Tomava um banho, vestia-se e saia para entregar-se á sua lubricidade.  Deitava-se sobre a grama e começava a passar as mãos pelas coxas olhando para o céu e tendo como sua única testemunha a lua, ia erguendo sua saia bem devagar, baixava a calcinha até os joelhos e deixava sua vulva à mostra como a exibi-la para a lua.  Então ia se tocando, se acariciando, se alisando e todo seu corpo se arrepiava enquanto ela afagava a vulva para a lua  e enfiava o dedo nela e depois tirava e roçava seu clitóris, brincava com ele e depois passava a cheirar o dedo e saborear seu próprio cheiro num ritual muito particular, mas inocente e prazeroso de concupiscência e prazer.  Isso se tornou para ela o mais pleno dos prazeres, a mais divertida das brincadeiras, um dia chegou a alcançar tamanho gozo que pensou que fosse morrer e urinou na grama sem pensar em nada, totalmente entregue ao gozo e à delícia daquele momento.  Isso se deu por algum tempo, até o dia em que sua mãe a seguiu e a flagrou e então a censurou muito e lhe bateu severamente com uma varinha de marmelo e depois a colocou de castigo por duas semanas sem sair mais à noite.  Atitude esta que não adiantou muito por que ela continuou a masturbar-se em seu quarto às escondidas e muitas outras vezes aprontou tantas outras coisas que um dia, após já ter completado seus dezoito anos, resolveu fugir de casa e o fez.  Porém jamais se esqueceu de sua promessa e nunca a tirou do pensamento.  Por todos os lugares onde passava sempre mantivera a lembrança de sua promessa e o desejo vivo de realizá-la.
   Mas quando seu cigarro acabou não quis mais relembrar.  Virou de frente para o interior de seu apartamento e se sentou cruzando as pernas.  Lentamente foi passando os olhos por tudo, seus objetos pessoais, seus enfeites baratos, seu aparelho de som que já não funcionava mais e todos os seus móveis desgastados e sujos.  Olhava para as coisas com ternura, mas não como alguém que fosse sentir saudades.  Quantas farras já tinha feito naquele apartamento!  Quantas barbaridades para outras pessoas, mas para ela agora eram apenas lembranças de noites loucas e divertidas.  E lá estava ela relembrando de novo, presa ao passado e sem ter nenhuma perspectiva de mudança, nem mesmo uma lembrança bonita para lhe acofiar o coração.  A única recordação boa que poderia ter seria do dia em seu filho nasceu, mas já nem disto podia orgulhar-se.  Dera-o à sua mãe para que o criasse, protegesse e educasse, pois ela não queria saber de nada mesmo e o pai ela já nem tinha certeza de quem era.  A avó certamente saberia como criá-lo por que ela própria não saberia, nascera para viver para o mundo.  O suposto pai, pelo menos o que ela tinha quase certeza de o ser, estava cumprindo pena numa penitenciária estadual e nem sabia que tinha um filho.  E afinal ela não tinha muito saco para crianças, havia dias em que não era capaz nem de suportar a si própria, não conseguia nem aturar sua própria risada desafinada.  Ora, que fosse tudo para o inferno, ela pensava.  Observando o vazio pleno de seu apartamento já não quis mais pensar em sua vida, não queria mais lembrar que tinha um filho vivendo longe dela e junto com o avô e a avó que não a toleravam, não quis saber de mais nada e pensou que sua vida era uma sucessão de erros malditos onde ainda incluía dois abortos espontâneos, drogas, álcool, tudo de ruim que pode se querer, era uma vida maldita!  Já devia dois meses de aluguel e não tinha para onde ir depois de um despejo que era quase certo, mas o que lhe importava, de fato, é que sempre tinha dinheiro para o cigarro.  A forma como as coisas todas tinham se sucedido em sua vida já não lhe importavam, tampouco.  Afinal haviam sido tantas as atitudes e os caminhos errados que tomara na vida.  Não queria mais pensar em nada.
   Virou novamente de cócoras para o lado de fora da janela e passou a observar o mundo noturno lá embaixo.  Tantas palavras e olhares perdidos na dissonância do vento!  Alguém no apartamento ao lado estava tomando banho, ela podia ouvir o ruído do chuveiro e por todos os cantos da cidade as pessoas comiam, bebiam, fodiam e se fodiam sem parar, era o mundo.
   Olhou para o céu.  Seu amor estava lá num flutuar celestial.
   Baixou novamente os olhos e eis que tinha novamente aos seus pés a cidade soturna com seus roncos de motores, suas luzes de neon, seus out-doors coloridos e todo o ritmo da noite.  Porém agora a cidade lhe parecia triste.  Eram taciturnos os becos, os habitantes todos eram anônimos e alguém ouvia músicas eletrônicas em algum lugar.  Tudo o que havia de vivo e deplorável era o baixo meretrício de onde viera antes de alugar aquele apartamento, o baixo meretrício que a abraçara como um generoso e paterno senhor.
   Olhou para o céu novamente e avistou seu amor, seu único e verdadeiro amor  desde a infância, plena em alva e formosura que arrebatava-a instantaneamente num transe de expectativa que instilava esperança em sua alma sofrida.  Era chegado o momento.  Tinha absoluta certeza de que era chegado o momento; mas conteve-se ainda.  Acendeu outro cigarro.  Tragou lenta e demoradamente enquanto residia em seu ser um pensar quase filosófico ou talvez eu devesse dizer, muito filosófico.  Fumou. 
   Jogou fora a bituca e saltou para abraça-la.  Porém o acaso lhe proporcionou um susto derradeiro para que se desse conta talvez, se arrependesse talvez ou apenas se assustasse mesmo.  Quando saltou não ficou em pé antes de fazê-lo, não se preparou como alguém que vai mergulhar numa piscina mas apenas impulsionou todo o seu corpo e todo o seu peso tal qual uma rã ou um gafanhoto o faz.  Foi um salto tão mal feito quanto impensado e repentino de modo que ela acabou ficando, por uns raros e fugazes segundos, enroscada por sua camisola que acabou ficando presa entre a cama e a parede, não importa, o que importa é que ficou pendurada por alguns segundos e esse foi o momento tresloucado e mais lúcido em que se arrependeu de saltar para a lua.  Saltar para encontrar o seu amor e a morte.  Foi a mesma sensação de quem tropeça e cai de repente e se dá conta de que caiu instantaneamente mas no caso dela, ela apenas se deu conta (ao enroscar-se) de que não queria saltar.  Não queria morrer de verdade, não queria encontrar seu amor lua, não queria suicidar-se!  Mas já era tarde; o enrosco de sua camisola, como eu disse durou apenas alguns segundos e o arrependimento de ter saltado durou metade desse tempo pois o resto foi estupefação e nada mais.
   Sua queda foi rápida, sua morte foi instantânea e sua última visão foi a de seu amor flutuando no céu entre as estrelas.

                                                                                                                Morpheus 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

EXORTAÇÃO DA POESIA


No repentino momento da travada
um entrave atravessa a palavra pensada
                         entretanto
o travão não impede a rima tão esperada
que traduzida se refaz sem trato entrelaçada
                                              e entretecida
                                já se tem por acabada
      embora não tenha sido rima bem rimada

me leva a...

                           Introspecção
sem o intrínseco movimento muscular da traquéia
                            se esconde
a voz como um caminhoneiro que dorme na boléia

E sigo trotando na tradução dos trovões d'alma
triplicando-se travessos sobre a tarde tão calma
trêmulos e translúcidos transtornos
os trejeitos ultrajantes são retornos
para rimas sem sentido e intragáveis
encrustadas em poesias tão estáveis

Por fim, pensei, pensei, trespensei
e conclui que, de fato, nada sei
acho que até me perdi no que eu pensava
mas no fim, isso nem tanto me importava
por que o que, na verdade me importa
é toda a força que a poesia ainda exorta


                                                                     Morpheus

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

MAGRA NEGRA, NEGRA MAGRA



NEGRA MAGRA
MAGRA NEGRA
MERETRIZ
MAGRA NEGRA UM DIA EU QUIS
QUE MAGREZA
A NEGRURA
e os peitinhos tão magrinhos
DA NEGRINHA
NA RUA DAS PEDRAS ENEGRECIDAS
AS TRISTES PUTAS ENTRISTECIDAS
E A NEGRA MAGRA ENTRE ELAS


MAGRA NEGRA
NEGRA MAGRA
MERETRIZ
MAGRA NEGRA E SEUS ARDIS
NA POBREZA
TODA AGRURA
e a escabrosidade tão sofrível
DA NEGRINHA
QUE NUMA VIDA JÁ VIVEU TANTAS VIDAS
E DESTRATADA ENTRE TROVAS ENCARDIDAS
AINDA ENTRETA ENTRE AS VIELAS


NEGRA MAGRA
MAGRA NEGRA
PROSTITUA
SORRINDO ENTRE DENTES TODA ARGUTA
POR TROCADOS ENTREGA A GRUTA
VENDE BARATO PRO TRUTA
transação noturna sem trote nem treta
ELA VENDE A BOCETA
SEJA O COMPRADOR MALUCO OU CARETA
ADMINISTRADOR, TRATANTE OU PERNETA


MAGRA NEGRA
 NEGRA MAGRA
PROSTITUTA
PROSTRADA E ENTREGUE A NEGRA PUTA
TODA NOITE NA LABUTA
E TAL CONDUTA
tão difícil, sem remédio, vida crua
A NEGRA NUA
PELOS BECOS, NAS ESQUINAS DA CIDADE
O AMOR JÁ SE FOI OU NUNCA FOI NA VERDADE
ESSA VIDA É SÓ SOFRIMENTO E MALDADE


                 
                                                                       Morpheus


sábado, 20 de outubro de 2012

ESTOMACAL



Eis-me num gástrico dia incomum
ou seria indigerível letargia crepuscular?
Na multidão sou apenas mais um
com dores no estômago e longe do lar

Náuse lenta e tempestades estomacais
regurgitando a efemeridade alimentícia
Quisera eu contemplar auroras boreais
e desaparecer com maestria e estultícia

Mas agora já me cansei
demasiadamente disto tudo
por isso calo a boca e fico mudo

Sem vômitos extravagantes
e diferentes frases agonizantes
eu apenas me calei


                                                                        Morpheus