terça-feira, 29 de setembro de 2015
O POEMA QUE ME ESCAPA
O poema que me escapa
A palavra que faltava
eu não lembrava...
não lembrava
O pensamento que me foge
que me foge
Uma ideia – bicho arisco –
um corisco,
cisco
levado pelo vento
Vento que me rouba o poema
o fonema
e o verbo tão dizente.
Infelizmente...
é o poema que me escapa
Morpheus
domingo, 20 de setembro de 2015
AS LEGIÕES
Subo a ladeira
carregando comigo as legiões todas,
pelo caminho os rostos são bizarros,
furibundos,
eternamente frustrados
Estou cansado...
nem todos podem suportar o fardo
poucos sabem o que é viver sendo o bardo
mas eu sou forte demais para ser vencido por eles
Eles não sabem de onde venho,
não conhecem minha história,
sabem muito pouco sobre mim
e acham que podem me enganar
Assim eu continuo caminhando
e as legiões seguem em meu encalço
com suas línguas pútridas e fedorentas
dizendo suas frases agourentas
Eles acham que podem me vencer,
acham mesmo que podem me derrubar
mas eu nunca lhes falei
da imensa força de vontade que pulsa em mim
Chego ao topo da ladeira
e encontro outros demônios
ainda mais cruéis
que me recepcionam com sorrisos
e frases de companheirismo
Caminho entre os demônios,
falo-lhes em seus próprios dialetos;
sorrio como se fosse um deles
Mas eles nada sabem sobre mim
Eles falaram e riram entre si por muito tempo,
comeram, beberam e dançaram seus ritmos tribais
mas eu não
eu não dancei,
não queria me tornar um deles
Jamais me tornarei um deles
Morpheus
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
POEMA ESCRITO EM TRÊS DIAS POR UM HOMEM QUE JÁ NÃO CONSEGUE CHORAR
Presto muita atenção
quando alguém chora diante de mim
ou me conta que chorou
Acho isto bonito.
Interessante.
E fico pensando e recordando do tempo
em que eu conseguia chorar
Mas que coisa mais linda é o pranto!
Se alguém chora diante de mim
eu acho isso absolutamente lindo
Entretanto, este ato de entrega,
esta imagem de catarse,
depura demonstração de humanidade
nem sequer arranha a metálica superfície inexorável
do meu coração
Ver a facilidade com que minha filha chora,
é um privilégio
Observar qualquer pessoa se descompondo
e deixando as emoções brotarem líquidas
é lindo,
é humano, é verdadeiro, é maravilhoso
Mas já não me afeta como deveria;
não,
não como outrora acreditei na verdade humana
Alguns prantos são dissimulados,
outros são forçados,
alguns até induzidos
e há os que são pura arte cênica
Estes eu ignoro totalmente
Os outros, os verdadeiros;
destes eu tenho inveja,
pois há muito tempo não sou capaz de alcançá-los
numa transcendência catartica do espírito
e dos olhos
Eu sou um destes rios que desaparece na estiagem
e não retorna na pluviose
Sou um homem de pedra
aprimorando suas técnicas rudimentares para obter precisão
nas acerções diáfanas necessárias a vida
e ao tecnicismo vazio
Mas eu gostaria de chorar
como um dia já chorei
Eu gostaria de chorar e de me desfazer em lágrimas
e me sentir pungido
como um animal ferido
que sente dor e sofre desesperadamente
ressentindo-se de seu predador voraz
Mas parece que as dores
não podem mais tanger esta alma miserável
As dores carnais e primitivas pouco podem,
as dores abstratas da psique fenecem lentamente
em virtude da estabilidade concreta
da rotina dos dias de um homem de bem
Eu gostaria de poder chorar
Mas os meus inimigos são incapazes
de me atingir
(ou serão demasiado incompetentes?)
Não me difamam,
não rogam pragas,
não sofro acidentes,
não perco dinheiro (não preciso de muito dinheiro),
não sei o que é terremoto,
não me sinto inferior,
estou sempre em minoria e isto me apraz
Casualmente minha mulher me pediu ajuda
e eu, ao ajudá-la a cortar cebolas
derramei uns pingos de lágrimas
Não eram verdadeiras, é claro,
não compunham sequer um pranto
mas serviriam como ponto final
para uma poesia árida
Morpheus
sábado, 29 de agosto de 2015
CADA GOLE DA BEBIDA
uma cerveja bem gelada
depois de uma boa trepada
e todos os problemas do mundo se dissolvem
como num passe de mágica
eu acredito no amor
como uma plena celebração da vida
e eu acredito no sexo
como plena manifestação de vida
e, é claro que eu acredito em mim
no sexo, no amor e em cada gole da bebida
Morpheus
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
COMEDOR DE LIVROS
Eu sou um devorador de livros que digere suas leituras à sombra de uma árvore psicodélica qualquer. Cada bocado tem um sabor próprio, incomum. Mas ás vezes; e isto não é muito raro, os sabores se parecem.
Eu caço leituras onde a precariedade dos cérebros se alastra e se aniquila de forma inconsciente e vil.
Procuro letras, capturo frases. Perscruto. Eu sou um devorador de livros que vomita poemas e assopra contos para dentro de receptáculos que estão sempre à margem. Aliás, a margem é quase sempre o melhor lugar para se estar. O melhor lugar para se descansar sem perceber qualquer dissonância no tempo e apreciar detalhadamente os profusos sabores. Para se estar no centro dos acontecimentos é preciso estar sempre defronte de indignações, revoltas e injustiças, por isso...para se estar no centro dos acontecimentos é preciso estar louco. Estar à margem, me permite a sobriedade.
Eu sou um devorador de livros que prefere estar à margem. Só. Ouvindo o ruído do nada; de sua própria respiração. Eu sou um devorador de livros que prefere não estar no centro do torvelinho mas que, paradoxalmente, pode estar ubiquamente em ambos os lugares.
Eu caço leituras onde a precariedade dos cérebros se alastra e se aniquila de forma inconsciente e vil.
Procuro letras, capturo frases. Perscruto. Eu sou um devorador de livros que vomita poemas e assopra contos para dentro de receptáculos que estão sempre à margem. Aliás, a margem é quase sempre o melhor lugar para se estar. O melhor lugar para se descansar sem perceber qualquer dissonância no tempo e apreciar detalhadamente os profusos sabores. Para se estar no centro dos acontecimentos é preciso estar sempre defronte de indignações, revoltas e injustiças, por isso...para se estar no centro dos acontecimentos é preciso estar louco. Estar à margem, me permite a sobriedade.
Eu sou um devorador de livros que prefere estar à margem. Só. Ouvindo o ruído do nada; de sua própria respiração. Eu sou um devorador de livros que prefere não estar no centro do torvelinho mas que, paradoxalmente, pode estar ubiquamente em ambos os lugares.
Morpheus
domingo, 19 de julho de 2015
UNÍSSONO PAÍS SEM DINASTIA
Sou rei,
meu império é o do silêncio
e reinar é calar-se e sentir a vida e a poesia
A quietude é o meu exercer domínio
e o meu domínio é saber
que nesta mansidão não é preciso senão
calar-se
e estar à mercê de meu feriado
A beira de cada hora
sentar-se à mesa como um digníssimo déspota
sem súditos nem arautos
mas com um reino todo a cada ato de
calar-se
e sentir a vida e a poesia
num uníssono país sem dinastia
Morpheus
sexta-feira, 10 de julho de 2015
A VERDADE DOS MEDÍOCRES
Nem sempre se é reconhecido pelo que se faz
e isto é fato tão comum e amiúde que; aliás
até atormenta
a mente
de todo aquele que supostamente
se julgue merecedor de alguma coisa
Tem-se aí o fomento da ojeriza
e da aleivosia que a ninguém nunca avisa
mas que chega fazendo estragos como um vendaval
mas a quem importa
o futebol, a novela, a popularidade, o carnaval?
Haverá de ser, certamente, um fator cultural
esse desinteresse pragmático,
e o meu papo de lunático...
Haverá de ser, certamente, coisa de desocupado
vagabundo, louco, bêbado, desorientado
pois eles é que sabem
que entendem
que conhecem
e que praticam
a eterna verdade dos medíocres.
Morpheus
sexta-feira, 19 de junho de 2015
A OFERENDA
Consiste de algo muito simples
apenas um prato branco de vidro
do mais barato que se possa encontrar
Sim, é um prato o que vos ofereço
um prato branco apenas
com o produto de minha oferta sobre ele
e isto, o tal produto, é em que consiste tal oferta
É algo inodoro, insípido e incolor
mas diferentemente da água não alimenta
muito pelo contrário, pode até minar forças
E minha oferta, na verdade, ao que me parece;
nem mesmo pode ser considerada uma oferta
já que é o antagonismo daquele que deseja presentear
O que vos ofereço
é o desprezo...
Te entrego
o meu desprezo numa bandeja;
a minha indiferença
em parcos momentos espaçados
como um peido que escapa aos poucos
Então; é isso. Uma ausência
mas se me forças a presença
eu peido do teu lado
sem avisar
e saio em silêncio
para que degustes a repugnância
do cheiro
Morpheus
terça-feira, 19 de maio de 2015
VOCÊ
Você diz que conhece Deus
antes mesmo de ter passado pelas saletas de torturas dos infernos
Fala de doutrinas
sem jamais ter pulado o muro da escola para fumar maconha
Você fala tantas coisas
politicamente corretas...você...
Quem é você?
Que mente com tanta honestidade...
Quem é você?
Que me olhava como se me adorasse
e que me tocava como se eu fosse o último dos homens
Te pedi uma noite e você só me deu quatro horas
A vida é muito curta para ser apenas trabalho
e também pode ser muito longa para ser apenas curtição
Felizmente, você se foi,
já não me atormenta mais
e assim eu posso então viver meus próprios tormentos
Morpheus
sábado, 9 de maio de 2015
O LAGO DORMENTE
Estávamos a espera...
esperávamos a efígie
no porto cinzento do lago dormente
SEM TEMPO
Algo movia-se rasteiro
bisbilhotando um ícone, uma forma, uma palavra
espreitando um estigma temporário
para símbolos latentes
que se movem inconscientes nas águas do lago dormente
(quando percebi que era o meu pensamento fugídio
se esgueirando pela relva, escapando,
crocitando, espiando, atraiçoando-nos
- o pensamento - este pequeno animal
já havia escapulido por entre as folhas e a escuridão)
Figuras sem cor e arautos neurastênicos
anunciando qualquer epíteto inconsistente
que afunda após seu nascimento absurdo
nas águas escuras e pesadas do lago dormente
acotovelavam-se num mutismo desolador
UM FANTASMA
Uxoricídio, fratricídio, matricídio, parricídio, genocídio,
crimes característicos de vidas de plástico...
as névoas repousando sobre dias de sol,
dias vomitados a beira das janelas bisbilhoteiras,
a fome, a sede, a luz
Aranzéis requintados se desfazendo como fumaça
dissimulando atitudes altruístas
os momentos que não deixam vestígios
levando consigo o sentido das palavras
nada,
nada adiantará pois o lago ainda será dormente
E os aranzéis e os crimes todos continuarão
em suas margens mortas
enquanto estamos assistindo a tudo e nos entorpecendo
e consumindo produtos e dizendo obscenidades,
é a vetusta loucura do mundo, é a natureza humana
Minha visão do lago foi um flash translúcido na noite;
sua lembrança será eterna
Tantas histórias apodrecendo, tantas fábulas
mofando sem que ninguém perceba
TÍSICA VENTANIA
VEM O VENTO DOS
HEMISFÉRIOS E A
LUZ HOMO SAPIENS
OBNUBILA-SE LENTAMENTE
Nulo o momento pelo qual se estendem
as possibilidades das sintaxes absortas no papel
anularem-se sistematicamente trazendo à tona
a síntese de um tronco vazio, oco...
Morpheus
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