sábado, 30 de junho de 2012

HISTÓRIA DE UM AMOR CANALHA





            Acho que foi em 1998...(hesitação).  É; foi mesmo em 1998, eu me lembro bem que eu já estava muito cansado de tudo naquela época.  Eu havia finalmente decidido parar de me drogar por que aquilo já estava me dando no saco e não estava me fazendo nada bem.  Eu vivia pálido, magro, sem ânimo.  Minha vida não tinha rumo, tudo o que eu fazia era ficar em casa ouvindo Pink Floyd, Raul, The Doors e depois saia pelas ruas procurando alguém que tivesse um baseado no mínimo.  Eu estava cansado da minha família, tinha abandonado os estudos, largado da minha namoradinha, eu não queria saber de trabalhar e tudo que me bastava era algum livro de Nietzche que eu me esforçava muito para compreender e uma garrafa de vinho, enfim, essas coisas.  O ano anterior havia sido terrível para mim, havia sido um ano de tristeza, solidão, a mais absoluta desolação e totalmente preenchido por barbitúricos, alucinógenos, álcool, enfim, nem adianta muito ficar citando os nomes e as categorias de entorpecentes, para que?  Eu também estava de saco cheio dos meus amigos por que ninguém, absolutamente ninguém neste mundo cão me compreendia, nem eu mesmo.  E eu ficava entediado demais com o papo de qualquer pessoa ao redor e por isso eu saia sozinho andando sem rumo ruminando meus pensamentos miseráveis.  Eu não fazia nada o dia todo a não ser ler e escrever obstinadamente.  Eu queria captar alguma coisa em algum lugar, mas não sabia o que, o fato é que nada fazia muito sentido para mim e aos poucos eu ia me afastando cada vez mais das pessoas pelo simples fato de parecerem demasiadamente maçantes.  E apesar de ter tomado a decisão de parar de me drogar, cada vez mais eu caia na rotina de chapar e sair andando pelas ruas tentando imitar Jim Morrisom com todo aquele estilo.  Eu tinha os cabelos compridos, uma jaqueta jeans estilosa e queria andar como se fosse o próprio Jim andando pelas ruas até que alguém gritava - ô viado – e eu ficava puto da vida com aquilo, ninguém sabia quem havia sido Jim Morrisom ou quase ninguém nas redondezas.  Só depois eu iria perceber que apesar de ter sido fodão, Jim Morrisom também havia sido muito imbecil e que tudo o que eu precisava na vida era apenas ser eu mesmo.  O dinheiro era cada vez mais raro e vez ou outra eu fazia uns biscates para poder torrar com cerveja e maconha.  Cheguei a vender uns CDs, uma bicicleta, umas coisas que eu tinha e que achava que eram inúteis, tudo para cheirar, fumar, beber, qualquer coisa que me alterasse a consciência o suficiente para dar a tal “inspiração”, o click, a conexão mental que eu precisava juntamente com todas as coisas que eu lia, ouvia e vivia incessantemente para entrar em contato com a poesia.  Mas ninguém entendia isso, todos pensavam que eu estava simplesmente drogado.  Cara, isso me deixava puto.  De qualquer modo, eu vivia entorpecido e entupido de drogas demais para reclamar com qualquer um sobre qualquer coisa e apenas pensava; foda-se, vou continuar a me concentrar nas minhas sensações e continuar a testar essas possibilidades todas.  Eu, no meu modesto modo de pensar, eu era uma outra categoria de drogado e tudo o que eu queria subtrair daquelas substancias era poesia.  Por isso eu me chateava com outros papos, tudo que não fosse o meu mundo poético era careta, era sem razão, era maçante.  Tornei-me um cara muito mais sombrio depois que descobri As Flores do Mal, de Baudelaire, aquele livro realmente mexeu comigo.  Eu fumava muita maconha sentado na janela do meu quarto e olhando a noite e deixando tudo aquilo fluir em mim para depois, quando sentia a poesia se infiltrando em minhas veias, pegar o caderno e escrever, eram tempos muito loucos.
            Mas como eu dizia, chegou um tempo em que aquilo tudo já não dava o barato mais, tudo aquilo havia se tornado sem sentido.  Além do mais eu vivia louco para dar uma metida e as garotas não queriam saber de mim por que eu era muito feio (feio ainda sou até hoje) e relaxado, enfim.  Por outro lado a maioria das garotas me parecia muito fútil e volúvel, estavam sempre “inseridas no contexto” e eu procurava uma garota que não estivesse inserida no contexto, queria encontrar uma garota com senso crítico, coisa que até nos dias de hoje não é muito fácil de se encontrar.  Os meus amigos maconheiros só se divertiam jogando bilhar e bebendo, mas depois de um tempo com eles aquilo me dava no saco e eu saia, deixava-os.  Ia perambular pela noite.  Eu estava ficando cada vez mais desgostoso da vida e não tinha nem dinheiro para comer uma puta, que vida desgraçada e sem sentido eu levava!  Eu estava ficando louco e não percebia isso.  Estava ficando literalmente pirado com aquilo tudo e me sentia num círculo vicioso, num labirinto sem saída, era foda, acredite!
            Foi quando conheci Laura.  Este era o nome dela.  Tudo começou quando um amigo meu que também estava procurando emprego disse que havia conseguido uns contatos e que, pelo menos durante o período da propaganda eleitoral a gente ia ter um emprego e uns trocados para gastar.  E lá fomos nós trabalhar como cabos eleitorais, emprego temporário e sem aspiração para nada mas que serviria para pagar umas noitadas pelo menos.  E foi lá que a encontrei, Laura.  Ela era morena, mas de uma cor assim, morena meio parda, parecia suja, mas não era suja, era limpinha.  Não era muito alta, lembro-me que ela tinha os dentes muito branquinhos e bem separadinhos apesar de fumar como uma condenada!  E os cabelos dela também eram assim, negros, mas de uma cor negra queimada, fustigados pelo sol, acastanhados e ondulados.  Tinha seios não muito grandes mas deliciosos e uma bela bunda.  Laura não era feia, mas também não posso dizer que era bonita.  A simpatia dela compensava o que faltava de beleza e então ela se tornava uma pessoa bonita, mas era uma vagabunda e alcoólatra, assim como eu.  Éramos dois miseráveis e por isso nos apaixonamos quase que imediatamente, em pouco tempo ela já estava pegando no meu pau e eu enfiava o dedo na buceta dela com gosto, mas tinha um pouco de receio de por o cacete ali por causa de AIDS e essas coisas todas, sabe como é.  E apesar de todos os defeitos que Laura pudesse ter ela era uma boa garota, simpática, inteligente, sabia conversar, não era banal neste sentido.  Mas também não tinha rumo na vida, era mãe de quatro filhos (hoje ela já tem seis), não se importava com nada, tudo o que ela queria saber era de curtir a noite e tal.  Ela gostava de música sertaneja, forró, pagode essas coisas populares e desprezíveis, vivia freqüentando essas espeluncas chamadas de curvas de rio (lugar onde só pára tranqueira); mas era apaixonada pela vida a pobrezinha.  Acho que, no fundo, ela esperava encontrar um grande amor.  Quando nos conhecemos ela namorava um cara e até usava uma aliança de compromisso e nosso primeiro lance foi traí-lo, obviamente.  Alguns dias depois ela já estava terminando com ele por que estava apaixonada por mim e eu imediatamente saquei que tudo o que eu tinha que fazer era dar umas boas gozadas antes que ela se apaixonasse por outro.  O fato é que eu também estava curtindo ela, ela era uma garota legal, apesar de tudo e tudo o que a gente fazia depois de trabalhar o dia todo era sair e ir para algum bar onde pudesse se embebedar e se beijar e se amassar e ficar trocando umas ideias muito doidas que somente eu e ela é que sacávamos.  Certa noite, depois do trabalho, paramos num bar onde havia alguns conhecidos de Laura, estavam combinando de ir para algum lugar e Laura me disse; ei, vamos também.  E eu pensei, foda-se, vamos.  Entramos num fusca e fomos.  Éramos dois casais, nós e uma amiga da Laura com esse tal cara que era o dono do fusquinha.  O fusquinha tinha um puta de um equipamento de som fodido e tocava um funk desgraçado que nos deixava surdos.  Eu nem sabia onde estava indo, estava bebendo e fumando e beijando Laura sem parar o tempo todo.  Paramos num outro bar, tomamos umas cervejas, puxei Laura para um canto escuro, dentro de uma garagem e começamos a nos pegar.  Ela tirou o meu pau prá fora e um carro apareceu justamente naquele momento e justamente naquela garagem.  Imediatamente eu tive que guardá-lo e saímos de lá.  Voltamos para o bar e tomamos mais algumas cervejas, começamos a nos beijar de novo e a rolar pela grama em frente ao bar e todo mundo nos olhava e ria.  Depois de um tempo saímos de lá e um outro casal veio com a gente, estávamos todos apertados no banco traseiro do fusquinha, nem sei como é que cabiam quatro pessoas ali.  O som explodia nos nossos ouvidos: “NÓIA-TREMENDA PARANÓIA-NÓIA-TREMENDA PARANÓIA”.  O fusquinha fazia umas curvas doidas e eu metia o dedo na buceta de Laura e fazia ela gemer enquanto metia a língua na orelha dela e a beijava incessantemente.  Até que chegamos a algum lugar que eu nunca tinha ouvido falar antes, eu estava sem dinheiro e tiveram que me pagar a entrada, que doideira!  Dentro do recinto apenas esses pagodes miseráveis e eu juro por Deus, não havia mais nenhum branco lá, exceto eu.  Branco, usando camisa dos RAMONES, cabeludo, magricelo, usando ALL STAR e o lugar todo repleto de negros sambando. Eles passavam por mim e me olhavam estranho e se perguntavam quem é que tinha trazido aquele cara até ali.  Laura logo foi dançar com o dono do fusquinha enquanto eu fiquei trocando umas ideias furadas com a amiga dela e tentando arranjar um jeito de tomar uma cerveja.  Acabei encontrado um traficante lá da vila no recinto e o cara era o segundo branco além de mim naquele lugar.  Depois de um tempo saímos de lá e quando o dia estava amanhecendo eu estava fodendo Laura de quatro num quartinho da casa do tal dono do fusca que acabou fodendo a amiga dela. Que noite!
            Então eu finalmente tinha conseguido meu objetivo.  Tudo que me restava então era esperar que ela me desse um pé na bunda e encontrasse um outro cara melhor do que eu, mas incrivelmente parecia que ela ainda tinha um afeto por mim.  Sem contar que o ex-namorado dela vivia pelas redondezas sempre farejando uma possibilidade de fodê-la também.  Nesse mesmo tempo eu também ia dando um jeito de pegar a amiga dela que, diga-se de passagem, era outra putinha também.  Ela já tinha prometido que ia dar para mim, bastava surgir a oportunidade e o momento e; não sei, acho que Laura ficou sabendo disso ou ela contou a Laura, não me lembro muito bem, o fato é que Laura ficou puta da vida comigo e terminamos.  Ai eu comecei a pegar a tal amiga dela, Gislaine, uma negrinha muito gostosa.  Mas isso só durou uns tempos, logo eu e Laura estávamos nos amando novamente.  Escrevi um poema para ela chamado “Afugentando Sonhos” e ela ficou tão doida que acho que quase mijou na calcinha naquele dia.  Lembro-me que estávamos na rua quando lhe falei sobre o poema e ela quase teve um treco, me jogou contra o muro e exigiu que eu mostrasse para ela.  Laura apreciava essas coisas, era uma mulher delicada e de muita sensibilidade e inteligência, apesar de não ser muito culta.  Um dia, logo depois de sair do trampo, paramos num boteco, pedimos umas cervejas e ficamos trocando umas idéias loucas, daquelas idéias que somente a gente mesmo é que entendia.  Pedi um copo americano de conhaque com limão (eu curtia muito conhaque com limão e Laura gostava de tomar cerveja com sal), tomamos umas cervejas e continuamos um tempinho por ali conversando e se pegando.  Então eu tive a ideia de levá-la para casa e ela imediatamente topou.  Nos fundos da casa onde eu morava havia uma edícula de um cômodo e um banheiro onde minha cachorra dormia e onde eu tinha planejado fodê-la.  Foi delicioso.  Pus ela de quatro e meti gostoso, foi lindo.  Laura ficou surpresa por eu ter chupado a xoxóta dela, parece que nenhum homem antes a havia tratado daquele jeito.  Mais tarde quem iria se escandalizar com isso seria Gislaine que, ao saber disto iria me dizer que só me daria se eu não chupasse a xoxóta dela, não sei muito bem qual era a encanação com isso mas, para ela parecia quase um tabu.  Acho que não estavam acostumadas a amar daquele jeito e neste quesito eram muito limitadas ao coito em si.  Certas habilidades sexuais podem parecer escandalosas para algumas mulheres que não são muito criativas ou excessivamente reprimidas quanto ao sexo.  No dia seguinte, logo pela manhã fui até a padaria, comprei uns pães, mussarela, presunto e preparei um belo café da manhã para ela.  Mas enquanto Laura estava à mesa tomando o café eu a observei durante algum tempo enquanto ela se alimentava e pensei comigo que aquilo tinha de acabar logo.  Pensei isto em silêncio, mas jamais tive coragem de abandoná-la.  Ainda bem que ela era mais sensata do que eu e, de certo modo, creio que pensava o mesmo.  Já não havia mais nada para ser feito entre nós e Laura também havia percebido isso.  Tanto que pouco depois disso ela terminou comigo de uma vez e eu enchi a cara de conhaque e a mente de fumaça e chorei e reclamei e vomitei e contei esta história milhões de vezes para mim mesmo enquanto rastejava pelo chão e suplantava todos estes sentimentos ignóbeis.  O fato é que estas coisas todas me deixaram uma boa bagagem na vida, são materiais de reflexão em alguns momentos por que, afinal, isto tudo me tornou um cara muito mais experiente para relacionamentos posteriores. Evidentemente não aconselho ninguém a agir como eu por que certas atitudes como as minhas são apenas para quem tem peito de aço, nervos de ferro e coração forte mesmo.  Gislaine?  Não comi, me escapuliu pelos dedos; outro dia a vi passando pela rua com uma criança no colo, acho que nem me reconheceu.


                                                                                       
                                                                                              Morpheus 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

DOCE


Depois de alguns dias o sol finalmente voltou
sem pedir
nem exigir

Apareceu pelas quatro da tarde iluminando
e aquecendo as terras que esperavam seu calor,
clareando toda a dicotomia do ser
sem agredir
sem proferir

As boas coisas da vida
são para poucos privilegiados
ou poucos privilegiados
é que sabem aproveitar as boas coisas da vida?


                                                                Morpheus

domingo, 20 de maio de 2012

NO CALÇADÃO


Capturei ebúrneos gestos seus
na manhã que chovia
e depois perdi meu poema na rua
Recapturei alguma idiossincrasia sua
no ar da rua que não é mais rua
mas depois me esqueci
e calado me aborreci
Fui abordado pela saudade da sua carne
branca
e fiquei em silêncio na rua
que não é mais rua

                                            Morpheus

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O NERVO



       O nervo exposto da vaidade agora incha
       E o corte certo quase não provoca dor
       A soberba conspurcada tem fios cintilescentes
                                          para cortes iridescentes
                                          em nervos subjacentes
       E o nervo exposto da vaidade agora sangra
       E o furor é o sangue no coração acelerado
       E a ruptura é sempre uma dor excruciante
                                          e se espalha em ondas
                                          como o faz uma pedra
                                          que num lago é atirada


                                                                      Morpheus

domingo, 29 de abril de 2012

PELAS RUAS


Ando pelas ruas
e uma melancolia baila no vento

As reuniões se propagam
pequenas pândegas se alastram
abençoadas pelos arquétipos midiáticos de efêmera intensidade
A carne tem o sabor de verter sangue
e a cerveja sacia o que a rotina não expurga
enquanto eu ando pelas ruas
e uma melancolia baila no vento

Qual é a cidade
que está dentro da cidade?

Que gentes são estas
que caminham entre as gentes?

As confrarias aparecem
aqui e ali,
os comentários jocosos e as palavras conspurcadas de aleive
entretecem o pano do hodierno
que é sempre infestado de mediocridade
e saturado na falta de personalidade
A diversão é não ter consciência mas;
para que serve esta suposta consciência?

Ando pelas ruas
e uma melancolia baila no vento

                                
                                              Morpheus

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO



Ah o meu amigo X...  Há quanto tempo não o via!  Vou chamar-lhe X para preservar-lhe a identidade já que os acontecimentos que vou relatar tratam de fatos não muito comuns e até imorais.  Pois bem, encontrei-o num shopping ontem à tarde, justamente num shopping!  Eu não o reconheci de imediato, ele é que me viu e, de longe já abriu o sorriso para vir cumprimentar o amigo.  Estava um pouco mais gordo e mais velho, assim como eu, mas mantinha o mesmo sorriso jovial de sempre.  Eu depois de um instante logo o reconheci e imediatamente emendamos um bate papo de velhos amigos.  Fato este que me fez relembrar o acontecimento que dá nome ao conto, mas primeiro permitam que eu vos faça uma breve introdução a respeito X.
            X havia estudado na mesma escola que eu durante o colegial e era um pouco mais velho do que eu.  Morávamos muito próximos e consequentemente tínhamos uma forte amizade, de modo que passávamos muito tempo juntos.  Tínhamos nosso próprio time de futebol, o Estrela Azul (numa outra oportunidade contarei a história do Estrela Azul), andávamos juntos para todo lugar, fazíamos festas, ás vezes conseguíamos pegar umas garotas mas naquela época não era fácil.  Até por que éramos muito tímidos e desengonçados e como todo mundo é; já foi ou será adolescente um dia saberá  entender muito bem o que é que eu estou falando.  Depois cada um seguiu seu rumo na vida, eu fui estudar literatura, casei, descasei, casei de novo, tive filhos, assim como X que me contou que a virada em sua vida aconteceu quando ele conheceu sua atual mulher cujo nome creio não ser necessário narrar aqui.  X me contou que havia trabalhado por seis longos anos no departamento pessoal de uma metalúrgica, emprego que largou para agenciar a mulher e uma série de sites pornôs na internet!  Entre outras coisas era também dono de uma sex-shop ali mesmo no shopping onde estávamos e dono de uma produtora de filmes pornôs.  X sempre foi meio maluco mesmo!  Uma figura!  Contou-me que tudo havia começado quando ele resolveu por a mulher pra trabalhar – ela dá o rabo e eu é que encho o bolso háháháháháhá – e o pior é que o cara me falava isso como se fosse a coisa mais natural do mundo!  Dá prá acreditar?  X me explicou que não esquentava por que ela também permitia que ele saísse com outras mulheres e que ele também participava de alguns vídeos com ela e com outras mulheres, enfim, aquilo tudo me pareceu ser uma putaria total.  Mas X parecia estar muito feliz e se dando bem naquela vida incomum.  Deu-me um cartãozinho e me disse que em breve seriam sorteados alguns internautas para participar da gravação de um vídeo com a mulher dele, mas que sujeito mais espirituoso!  Eu respeitosamente guardei o cartãozinho com a intenção de jogá-lo fora depois para não ter conflitos com minha mulher em casa.
            Logo em seguida o próprio X acabou relembrando o episódio que agora vos relato:
            Era um domingo e nós passeávamos pelo shopping na esperança de encontrar algumas “minas”, que era a mais nova gíria que usavam no começo dos anos noventa (ou final dos oitenta) para se referir as garotas. O shopping também era novo na cidade e nós éramos uns bobocas punheteiros doidos prá pegar mulher.  Aquilo tudo era uma novidade na época, o shopping, as lojas, a possibilidade de arranjar umas namoradas, enfim.  E nós éramos aventureiros sedentos por novidades.  Curtíamos Guns and Roses, Metallica, Alice In Chains, Legião Urbana, Engenheiros do Hawai; essas coisas. Jogávamos super nintendo até acabar com as digitais dos dedos.  Éramos doidos prá ter uns tênis de marca, mas nossos pais só compravam aquelas falsificações fajutas e nós tínhamos que usar por que, afinal não tínhamos outra coisa para calçar.  Íamos à pé mesmo ao shopping por que ele não ficava muito distante do bairro onde morávamos.  Naquele domingo o shopping estava praticamente vazio e nós perambulávamos por ali jogando conversa fora e dando uma espiada nas montras que exibiam as mais novas marcas de roupas de surf daquela época, aquilo tudo era um novidade e tanto prá gente.
            Foi quando, ao se aproximar da porta de vidro de uma daquelas lojas, de repente X notou que ela parecia não estar trancada e chamou minha atenção.  Forçamos um pouco a porta de vidro e ela se abriu.  Fechamos rapidamente a porta e saímos dando risada mas ao mesmo tempo meio assustados.  Então X lançou a ideia do furto no ar e rapidamente nos apegamos a ela.  Demos uma volta pelo shopping e traçamos nosso plano.  X ainda não acreditava que eu teria coragem de entrar lá dentro e surrupiar uns bonés prá gente.  Então combinamos que X ficaria vigiando e eu entraria lá dentro para pegar os bonés.  Ainda estávamos um pouco desconfiados de haver câmeras pelo shopping, mas o fato é que tivemos muita coragem.  E lá fomos nós.  Aproximamo-nos com cautela da loja e esperamos que um pequeno grupo de pessoas se afastasse para pôr o plano em prática.  X se encostou na vitrine e ficou vigiando o corredor.  Eu empurrei as portas e entrei, rapidamente alcancei o boné que eu queria e depois o que X havia escolhido, ainda tive tempo de enfiar a mão por baixo de uma das prateleiras e pegar uma carteira novinha em folha para mim.  Pus o meu boné dentro da calça e escondi a carteira num dos meus bolsos, sai e fechei a porta de vidro com cautela.  Dei o boné a X que o escondeu nas calças e saímos rapidamente de lá.  Afoitos e nervosos descemos a escadaria e nos dirigimos para a saída quase sem falar um com o outro, coisa de louco cara!  Temíamos ser perseguidos por algum dos guardas do shopping mas o fato é que em pouco tempo já estávamos fora do shopping e atravessando a rodovia Raposo Tavares para voltar para casa.  Ufa, que maluquice!  X ria o tempo todo e arregalava os seus olhos enormes e redondos dizendo que ninguém jamais iria acreditar se contássemos a história.  Quando chegamos à casa de X ainda cogitamos a ideia de voltar lá e roubar umas roupas, mas tudo isso ficou somente na conversa, o fato é que não éramos ladrões de verdade, mas apenas de ocasião, como lhes disse.  Éramos razoavelmente inocentes e pouco ambiciosos, tanto que nos contentamos apenas com uns bonés.  Hoje percebo que foi apenas um desses episódios incríveis que se vive na vida.  O fato é que eu ainda tenho aqui comigo o cartão que X me deixou e; quem sabe eu não resolva me inscrever no tal sorteio...


                                                                                                                   Morpheus

terça-feira, 10 de abril de 2012

SONETO DE REPUGNA

Se contorce na volúpia do momento,
se regala no acúmulo do capital
como um vil demônio agourento
que esbraveja neste país tropical

Se revigora na opulência do dinheiro
enquanto empobrecem as virtudes pessoais
À ignomínia se entrega por inteiro
e, aparentemente, sobrepõem-se aos demais

E segue assim em suas sendas
de manhã, à tarde e à noite
só lhe restam improfícuas vendas

E segue assim sua vida
como pestilento cão
lambendo a própria ferida

                                                                    Morpheus

sexta-feira, 30 de março de 2012

DISPARATES

Na pressa do passo
expresso o passado
lembrança...

Expresso é o passo
não pondera o passado
nem expressa, não expressa
tem pressa

e espasmos sem peias
das pontes sem portas
e tudo que exortas
confortando o coração
na pressa a sublimação

a pressa
expressa
passa
esquece

esquece o Estado falido
que não ajuda e até atrapalha

Espalham-se pelas ruas como um líquido por frestas
as crianças sem herança
e a pressa
não interessa
mas é sempre essa
a pressa

Amargos ferimentos nos muitos contratempos
e as baratas trêmulas
lutando pela vida
assustando Dona Cida
que eu nem conheço
mas que reconheço
ser alguém muito melhor do que tudo que escrevi

tenho pressa
por que já nada me interessa
nem mesmo essa
guria que se estressa

então me expresso
apressado
mas não me estresso

ora, ora...

                                                                Morpheus

terça-feira, 20 de março de 2012

NA MANHÃ QUENTE

Acordo na manhã quente com o coração luxurioso
sentindo a dureza pétrea de meu endurecido falo
Imediatamente encontro teu rabo e te empalo
num movimento fremente, louco e muito gostoso

Mordo os seios com a fome primitiva e ancestral
sou escravo e o desejo da carne me governa
Retiro o falo e o enfio com prazer noutra caverna
e cavo, procuro o gozo para saciar o desejo infernal

A jactância da delícia é meu deleite
ela quer, eu sei que quer
Eternamente a quentura do meu leite

O atrito é cada vez mais evidente
e sem mais poder me conter
Gozo na buceta minha porra quente

                                                                           Morpheus

sábado, 10 de março de 2012

GATO E RATO

            Acordo de madrugada ouvindo uns ruídos estranhos.  A boca seca.  Ressaca, um calor infernal.  Parece que tem alguém na garagem.  Levanto-me de repente, vou até a cozinha de onde posso avistar a garagem pela janela.
            Há um homem na garagem.  Um ladrão filho da puta!  O susto faz meu coração disparar, fico tremendo.  O desgraçado está fuçando nas minhas coisas.  O que procura?  Fico observando-o durante algum tempo sem saber muito bem o que fazer.  O elemento parece ser um pouco mais baixo que eu e naquele calor dos infernos parece estar usando uma jaqueta.  Chamo a polícia?  Ando devagar até o armário enquanto um arrepio percorre minha espinha, abro a gaveta devagar e começo a procurar uma faca e então ele, de lá da garagem para de fuçar nas minhas coisas.  Levanta a cabeça, olha para os lados, parece ter ouvido o barulho que fiz na gaveta.  Meu coração dispara, mas não me importo, continuo procurando a faca sem tirar os olhos do filho da puta que parece se esforçar para ver através da janela.  Estará me vendo?
            Encontro a faca!  Estou arrepiado de medo e de raiva.  Maldito desgraçado, por que veio me roubar?  Ele está parado lá do outro lado, em silêncio, olhando através da janela, acho que já percebeu que eu estou na cozinha.  Por um instante, parece que estamos nos medindo.  Aproximo-me da parede e acendo a luz da garagem.   Ele desaparece pelo portão da frente.  Rapidamente encontro a chave e abro a porta, saio lá fora suando como um porco e morrendo de medo e de raiva.  Me aproximo com cautela do portão.  Seguro a faca com força.  Ele pode estar perto do muro, do lado de fora, apenas esperando para me acertar.  Devagar eu abro o portão pronto a golpeá-lo com a faca.  Mas ele parece não estar por ali.  Saio na calçada.  Ele está na esquina.  Parado.  Será que espera que eu volte para dentro e chame a polícia?  Será que pensou que eu ficaria com medo dele?  Mas que diabo!  Ele está parado lá, me encarando.  Filho da puta!  Não tem medo?  Pois bem, eu também não.
            Começo a andar na direção dele.  E ele começa a andar de costas sem deixar de me encarar de longe.  Começo a andar mais rápido e ele se vira e começa a andar mais rápido também.  Começo a correr e ele também começa a correr.  Ele corre na direção de um ponto de ônibus, mas não há ônibus nenhum àquela hora da madrugada.  E eu o persigo por uns duzentos metros correndo atrás dele e ele fugindo de mim.  Até que ele dobra uma esquina.  E eu vou ficando cansado, estou morrendo de sede.  Ressaca desgraçada!  Chego até a esquina e ele está parado lá no meio da rua, uns cinqüenta metros à minha frente.  Encosto uma das mãos no muro, respirando a grandes haustos enquanto o desgraçado me observa de longe.  Parece estar sorrindo.  Mas não consigo enxergar direito seu rosto.  Estou quase sem ar.
            Então de repente ele começa a andar na minha direção.  E eu começo a andar de costas para trás sem deixar de encará-lo.  Acho que estou cansado demais para encará-lo, ou estaria apenas com medo?  Ele começa a andar mais rápido.  E eu também começo a andar mais rápido.  Ele começa a correr e eu também começo a correr.  Meu Deus do céu, o que estou fazendo?  O maldito filho da puta está me perseguindo!  Mas eu corro, corro como nunca antes corri em minha vida, corro sem olhar para trás.  Corro até o ponto de ônibus e quando dou uma olhada para trás ele desapareceu.
            Desapareceu?   Para onde terá ido?  Estou pingando de suor.  Sento-me no ponto de ônibus para tomar um ar e recuperar minhas forças.  Olho incrédulo para a rua de onde vim correndo e eis que ele surge novamente na esquina.  Está brincando comigo; idiota!  Quer ver se tenho coragem.  Mas agora eu decido não fugir mais, vou lutar com ele, matar ou morrer.  E fico ali esperando, mas ele não vem.  Apenas observa de longe.  Que coisa!  Mas o que esse desgraçado quer afinal de contas?  Qual é a dele?
            De repente ele recomeça a andar na minha direção.  Levanto-me do ponto de ônibus e o encaro.  Ele pára.  Estamos num impasse.  Filho da puta!  Ele permanece parado, parece estar esperando que eu corra atrás dele de novo.  Por quê?  Faço sinal com as mãos para que ele venha me encarar.  Mas ele não vem.  Continua ali parado o desgraçado.  Continua me encarando de longe.  Estará esperando que eu corra atrás dele de novo?
            Então ele se vira de costas e vai embora.   
                                                

                                                                                        Morpheus