sexta-feira, 30 de março de 2012

DISPARATES

Na pressa do passo
expresso o passado
lembrança...

Expresso é o passo
não pondera o passado
nem expressa, não expressa
tem pressa

e espasmos sem peias
das pontes sem portas
e tudo que exortas
confortando o coração
na pressa a sublimação

a pressa
expressa
passa
esquece

esquece o Estado falido
que não ajuda e até atrapalha

Espalham-se pelas ruas como um líquido por frestas
as crianças sem herança
e a pressa
não interessa
mas é sempre essa
a pressa

Amargos ferimentos nos muitos contratempos
e as baratas trêmulas
lutando pela vida
assustando Dona Cida
que eu nem conheço
mas que reconheço
ser alguém muito melhor do que tudo que escrevi

tenho pressa
por que já nada me interessa
nem mesmo essa
guria que se estressa

então me expresso
apressado
mas não me estresso

ora, ora...

                                                                Morpheus

terça-feira, 20 de março de 2012

NA MANHÃ QUENTE

Acordo na manhã quente com o coração luxurioso
sentindo a dureza pétrea de meu endurecido falo
Imediatamente encontro teu rabo e te empalo
num movimento fremente, louco e muito gostoso

Mordo os seios com a fome primitiva e ancestral
sou escravo e o desejo da carne me governa
Retiro o falo e o enfio com prazer noutra caverna
e cavo, procuro o gozo para saciar o desejo infernal

A jactância da delícia é meu deleite
ela quer, eu sei que quer
Eternamente a quentura do meu leite

O atrito é cada vez mais evidente
e sem mais poder me conter
Gozo na buceta minha porra quente

                                                                           Morpheus

sábado, 10 de março de 2012

GATO E RATO

            Acordo de madrugada ouvindo uns ruídos estranhos.  A boca seca.  Ressaca, um calor infernal.  Parece que tem alguém na garagem.  Levanto-me de repente, vou até a cozinha de onde posso avistar a garagem pela janela.
            Há um homem na garagem.  Um ladrão filho da puta!  O susto faz meu coração disparar, fico tremendo.  O desgraçado está fuçando nas minhas coisas.  O que procura?  Fico observando-o durante algum tempo sem saber muito bem o que fazer.  O elemento parece ser um pouco mais baixo que eu e naquele calor dos infernos parece estar usando uma jaqueta.  Chamo a polícia?  Ando devagar até o armário enquanto um arrepio percorre minha espinha, abro a gaveta devagar e começo a procurar uma faca e então ele, de lá da garagem para de fuçar nas minhas coisas.  Levanta a cabeça, olha para os lados, parece ter ouvido o barulho que fiz na gaveta.  Meu coração dispara, mas não me importo, continuo procurando a faca sem tirar os olhos do filho da puta que parece se esforçar para ver através da janela.  Estará me vendo?
            Encontro a faca!  Estou arrepiado de medo e de raiva.  Maldito desgraçado, por que veio me roubar?  Ele está parado lá do outro lado, em silêncio, olhando através da janela, acho que já percebeu que eu estou na cozinha.  Por um instante, parece que estamos nos medindo.  Aproximo-me da parede e acendo a luz da garagem.   Ele desaparece pelo portão da frente.  Rapidamente encontro a chave e abro a porta, saio lá fora suando como um porco e morrendo de medo e de raiva.  Me aproximo com cautela do portão.  Seguro a faca com força.  Ele pode estar perto do muro, do lado de fora, apenas esperando para me acertar.  Devagar eu abro o portão pronto a golpeá-lo com a faca.  Mas ele parece não estar por ali.  Saio na calçada.  Ele está na esquina.  Parado.  Será que espera que eu volte para dentro e chame a polícia?  Será que pensou que eu ficaria com medo dele?  Mas que diabo!  Ele está parado lá, me encarando.  Filho da puta!  Não tem medo?  Pois bem, eu também não.
            Começo a andar na direção dele.  E ele começa a andar de costas sem deixar de me encarar de longe.  Começo a andar mais rápido e ele se vira e começa a andar mais rápido também.  Começo a correr e ele também começa a correr.  Ele corre na direção de um ponto de ônibus, mas não há ônibus nenhum àquela hora da madrugada.  E eu o persigo por uns duzentos metros correndo atrás dele e ele fugindo de mim.  Até que ele dobra uma esquina.  E eu vou ficando cansado, estou morrendo de sede.  Ressaca desgraçada!  Chego até a esquina e ele está parado lá no meio da rua, uns cinqüenta metros à minha frente.  Encosto uma das mãos no muro, respirando a grandes haustos enquanto o desgraçado me observa de longe.  Parece estar sorrindo.  Mas não consigo enxergar direito seu rosto.  Estou quase sem ar.
            Então de repente ele começa a andar na minha direção.  E eu começo a andar de costas para trás sem deixar de encará-lo.  Acho que estou cansado demais para encará-lo, ou estaria apenas com medo?  Ele começa a andar mais rápido.  E eu também começo a andar mais rápido.  Ele começa a correr e eu também começo a correr.  Meu Deus do céu, o que estou fazendo?  O maldito filho da puta está me perseguindo!  Mas eu corro, corro como nunca antes corri em minha vida, corro sem olhar para trás.  Corro até o ponto de ônibus e quando dou uma olhada para trás ele desapareceu.
            Desapareceu?   Para onde terá ido?  Estou pingando de suor.  Sento-me no ponto de ônibus para tomar um ar e recuperar minhas forças.  Olho incrédulo para a rua de onde vim correndo e eis que ele surge novamente na esquina.  Está brincando comigo; idiota!  Quer ver se tenho coragem.  Mas agora eu decido não fugir mais, vou lutar com ele, matar ou morrer.  E fico ali esperando, mas ele não vem.  Apenas observa de longe.  Que coisa!  Mas o que esse desgraçado quer afinal de contas?  Qual é a dele?
            De repente ele recomeça a andar na minha direção.  Levanto-me do ponto de ônibus e o encaro.  Ele pára.  Estamos num impasse.  Filho da puta!  Ele permanece parado, parece estar esperando que eu corra atrás dele de novo.  Por quê?  Faço sinal com as mãos para que ele venha me encarar.  Mas ele não vem.  Continua ali parado o desgraçado.  Continua me encarando de longe.  Estará esperando que eu corra atrás dele de novo?
            Então ele se vira de costas e vai embora.   
                                                

                                                                                        Morpheus

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SOBRE O CHORO E AS COISAS QUE ESQUECI

O choro de agora não é o mesmo de outrora
como agora não espero que antes esperava
o chorinho que eu curtia me acompanhou até o lado de fora
onde esqueci em que pensava e tudo aquilo que esperava

É claro, muda o choro como muda o pensamento
que esquece o que queria dizer ou sobre o que falava
e é claro que quando saí percebi que era o momento
em que me confundi naquilo em que me empenhava

Então tudo só pode acabar de modo confuso;
por que as coisas na vida ás vezes
são confusas, assim como este poema difuso

O chorinho ainda é e sempre será o choro
embora a cada momento seja uma emoção diferente
do modo como, um dia, foi para toda esta gente...

                                                                                             Morpheus

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

PROMESSA

Minha mente é um limbo atemporal
É um ermo crepuscular
Por onde costumo andar
Quando não estou em horário comercial

Minha mente me prepara armadilhas
Me trata como um tolo
Nisto se vê maledicência e dolo
Mas, obstante, ainda encontro redondilhas

Ainda sou capaz de encontrar a saída
Que me leva
De volta à minha vida

Ainda sou capaz de terminar o soneto
E cumprir
Tudo aquilo que prometo

                                                               Morpheus

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

DIAS NUBLADOS

Primeiro Dia

            O primeiro dia era para ter sido, apesar de todo o nervosismo e de toda a expectativa de Firmino, bom.  Bom como são todos os primeiros dias em todos os empregos que se consegue, não é mesmo?  Mas infelizmente, no caso de Firmino, as coisas não foram bem assim.  Também não posso dizer que tenha sido ruim; posso apenas dizer que foi um primeiro dia um tanto incomum.  Quando chegou ao restaurante para o seu primeiro dia de trabalho podia-se perceber em seu rosto macilento a típica expressão do homem do campo; aparentemente ingênuo, curioso, um pouco desconfiado talvez mas muito disposto.  Alguém que chegava de peito aberto e com toda a coragem para se meter na vida urbana.  Na maneira introvertida como chegou ao dono do restaurante para lhe falar não se acreditaria que fosse ele, Firmino da Silva Antunes, o sujeito certo para o trabalho.  Teria de usar uma placa nas costas com o endereço do restaurante pintado em letras garrafais, ir até o meio do calçadão onde a plebe se perdia e se encontrava e sair anunciando com brados eloqüentes:

                         “Prato feito a quatro e cinqüenta
                           cabe tanta comida que você nem aguenta
                           vira a próxima a direita no número cento e setenta”

            Foi um susto quando ele soltou o vozeirão no meio do restaurante para mostrar ao chefe que podia e sabia como fazer o trabalho.  O chefe desmanchou-se num sorriso encharcado e disse apenas que o emprego era dele, arrumou tudo, deu-lhe a placa para carregar nas costas, um café da manhã com pão, manteiga e café com leite e o mandou para a rua.
            E lá se foi Firmino com a cara, a coragem e a placa nas costas.  Logo ao sair do restaurante já começou a gritar para todos os lados com sua voz sertaneja, o estranho slogan do restaurante.  Passou por algumas ruas, dobrou uma esquina com toda a felicidade que o começo de uma nova vida e um novo emprego podem trazer.  Ao chegar ao calçadão sentiu-se absolutamente confortável no meio do povo que ia e vinha sem parar, sentiu até vontade de pegar seu violão e cantar uma canção caipira como as que costumava cantar em sua terra.  De vez em quando uma pessoa parava e perguntava a ele sobre o restaurante e ele se desdobrava em explicações e elogios, ensinava o caminho com gestos na maior dedicação.  E assim o dia transcorreu tranqüilo até as três da tarde, hora que havia sido marcada por seu patrão para que Firmino pudesse almoçar e repor suas energias.  Voltou ao restaurante e pôde experimentar o produto que estava oferecendo ao povo, achou que a comida caseira de sua mãe era melhor que a do restaurante porém, agiu com diplomacia e elogiou o sabor da comida.
            Regressou caminhando tranquilamente, olhando ao redor, palitando os dentes, fazendo a digestão e parou finalmente no calçadão para recomeçar seu trabalho.  Deu uma leve tossida, cuspiu para limpar a garganta e recomeçou a gritaria rimada, pois o restaurante também servia jantares.  A alguns metros dali três guardas conversavam e logo que Firmino começou a gritar eles vieram pressurosos em sua direção e ordenaram que ele parasse, pediram os documentos e, de um modo muito impessoal fizeram várias perguntas.  Puxaram sua ficha criminal pelo rádio mas nada encontraram por que afinal Firmino era um homem de bem.  E como não restava nenhuma alternativa para incriminá-lo começaram a inquiri-lo quanto a uma tal licença para fazer a promoção do restaurante no calçadão.  Ele disse que não tinha e quando ia acrescentar algo foi interrompido por outra pergunta sobre o tempo em que já estava ali antes da chegada deles.  Firmino explicou tudo e também falou que aquele era o seu primeiro dia no emprego, mas eles replicaram que isso não interessava a eles e nem a ninguém.  Que era preciso ter licença junto à prefeitura e cadastro junto ao governo do estado para então ter o direito de ser registrado oficialmente em carteira naquela função e consequentemente poder exercer tal trabalho de acordo com a lei e todos os seus infindáveis pormenores.  Mas ele não tinha nada com isso, era seu primeiro dia no emprego, ele apenas cantava algumas músicas sertanejas em sua cidade natal e tinha conseguido aquele emprego apenas por que conseguia gritar bem alto para todos ouvirem e, além de tudo já estava desempregado a dois meses na metrópole, precisava trabalhar, precisava sobreviver.  Os guardas apenas lhe disseram que não podia continuar ali e Firmino pediu para que eles o acompanhassem até o restaurante a fim de prestar maiores esclarecimentos sobre a sua real situação mas eles disseram que não.  Não podiam abandonar seus postos por motivos frívolos.  Os guardas então ordenaram a Firmino que retornasse ao referido restaurante e explicitasse o motivo de seu retorno explicando ao seu patrão que era proibido fazer aquele tipo de promoção sem a licença municipal, registro estadual, qualificação específica para a função que exerceria e; naturalmente o registro em carteira.  E foi exatamente isso o que Firmino fez quando chegou desconsolado ao restaurante, porém o dono do restaurante ignorou completamente tais argumentos e o convenceu a voltar lá e recomeçar tudo de novo, pois os policiais só estavam sendo hostis por que ainda não o conheciam e ainda não tinham se familiarizado com ele, que ele já não deveria temer por que eles já tinham ido embora e ele poderia voltar lá e continuar seu trabalho.  De volta ao calçadão e já pensando que a vida naquela cidade parecia ser muito complicada, Firmino olhou pelos arredores e como não avistou os guardas seguiu a orientação de seu patrão, recomeçou a gritaria novamente e trabalhou até as sete como havia sido combinado.  Quando ia voltando para o restaurante avistou um carro da guarda municipal passando pela rua e ficou apreensivo, fez o sinal da cruz, abaixou a cabeça e seguiu com toda seriedade sem olhar para os lados.  Ao retornar ao restaurante deu com o patrão feliz da vida contando um maço de dinheiros.  Já o patrão ao vê-lo guardou o dinheiro rapidamente e sorriu com o canto direito da boca, Firmino tinha quase certeza que aqueles cabelos negros e lisos de seu chefe eram uma peruca, mas por discrição é claro, não disse nada a respeito disto.  O homem coçou o bigode de um modo estranho e lhe perguntou sobre o dia de trabalho.  Firmino disse que tinha sido bom, que estava gostando e que, fora o episódio com os guardas tudo tinha sido ótimo.  Seu chefe deu-lhe um amistoso tapinha nas costas e desejou-lhe um bom descanso.


Segundo Dia

            O dia amanheceu escuro através do vidro embaçado da janela do pequeno apartamento que Firmino alugara para começar sua nova vida na gigantesca metrópole.  Uma preguiça matinal o manteve deitado na cama olhando para a janela até que faltassem apenas dez minutos para chegar ao emprego; fato que não o atrapalhava em nada pois o apartamento ficava a apenas duas quadras do restaurante.  Por fim ele saltou da cama de chofre e começou a vestir-se.  E enquanto ia se arrumando com pressa, pensava se ia poder trabalhar no meio da chuva ou se teria de ficar talvez preso no restaurante e fazendo algum outro tipo de trabalho por lá.  Chegou mesmo a cogitar não ir ao trabalho naquele dia, mas imediatamente reconsiderou crendo que seu patrão certamente daria um jeito, pois tudo levava a crer que choveria naquele dia.  Firmino imaginou que talvez o homem lhe arranjasse um simplório guarda-chuvas.  E foi quase isto mesmo o que se deu.  Quando avistou Firmino, da frente do restaurante o homem de cabelos estranhamente lisos já segurava nas mãos uma capa de chuva que tinha o nome do restaurante estampado nas costas.  Bem, pelo menos Firmino não teria de carregar aquela placa pesada nas costas.  Firmino sorriu com toda a sinceridade de homem simples e depois de saborear seu pão com manteiga e café com leite com alguma voracidade, seguiu seu caminho dentro da capa.  Enquanto caminhava para o calçadão e olhava para o céu nublado e negro com várias tonalidades cinzentas de nuvens Firmino divagava.  Olhava para o céu através dos edifícios e meditava silenciosamente sobre sua nova vida.  Agradava-lhe muito o fato de sentir-se útil novamente depois de um tempo sem conseguir emprego, alimentava muitas esperanças naquele recomeço longe de tudo.  Mas não deixava de imaginar como estavam as coisas em sua terra natal e começava a embriagar-se numa nostalgia cabocla quando finalmente chegou ao calçadão e despertou de seus devaneios.  Quando começou a gritar esqueceu-se de tudo e até alegrou-se um pouco.  Começou a brincar com as pessoas que por ali passavam, inventou novas maneiras de falar do restaurante e até esqueceu do céu escuro sobre sua cabeça.
            Até que veio a chuva trazendo com ela também o frio e afastando as pessoas das ruas.  Firmino ficou quase sozinho no calçadão, longe de seu mundo e de sua família, longe de sua terra, com frio e melancólico.  Voltou ensopado ao restaurante para o almoço e justamente neste horário foi que a chuva aumentou.  Os pingos caiam fortes e vigorosos.  Então o dono do restaurante disse a Firmino que fosse embora para casa, pois naquele dia não dava mais nada, iria chover o dia todo.  Como não restava mais nada mesmo a fazer, Firmino almoçou e foi embora taciturno enquanto a chuva forte tinha se tornado chuvisqueiro teimoso e contínuo.


Terceiro Dia

            Da cama Firmino observava os tons cinzentos que transpareciam através dos vidros embaçados da pequena janela.  O dia amanhecera nublado mais uma vez e isso o decepcionou um pouco.  Mas Firmino não era de perder tempo, por isso se levantou antes que o despertador começasse a fazer barulho, pois praticamente não dormira à noite.  Foi até a janela e a abriu para ver como estava o céu.  As nuvens escuras tomavam todo o céu escurecendo o dia.  De qualquer modo Firmino ainda sentia muita vontade e disposição para ir trabalhar, passara a noite toda imaginando novas maneiras de falar ao público sobre o restaurante e agora se deparava com a carranca cinérea de um céu sombrio e zangado.  Mas uma brisa leve veio bater-lhe no rosto caboclo e reanimá-lo, uma brisa que o fez lembrar-se de seu pai.  Seu pai sempre dizia que; quando está ventando não chove.
            Fechou a janela rapidamente, vestiu-se e saiu sem lavar o rosto.  Ao chegar ao restaurante foi recepcionado pelo sorriso mais jovial e demoníaco que seu chefe poderia lhe oferecer.  Tomou seu café magro, trocou algumas palavras rápidas e saiu para a rua todo feliz enquanto seu chefe comentava com o cozinheiro purulento que estava ao seu lado:
  - Tá vendo, é por isso que eu contrato esses caipiras, trabalham como cavalos e nunca reclamam de nada.
            Logo que chegou ao calçadão Firmino deu uma boa olhada para os lados para ver se algum daqueles guardas do outro dia estava na área para apoquentá-lo e como se certificou de que nenhum deles estava por perto começou a gritaria.  E assim as horas foram passando tranquilamente até que de repente três deles surgiram Deus sabe de onde e vieram imediatamente na direção de Firmino.  Não eram os mesmos do outro dia mas fizeram quase as mesmas perguntas, um deles que parecia ser o mais velho e usava bigode e já tinha os cabelos um pouco grisalhos, parecia estar no comando enquanto que os outros dois eram apenas brutamontes pouco inteligentes que quase não diziam nada mas que, no entanto, encaravam Firmino com hostilidade a fim de intimidá-lo obviamente.  Indagaram-no quanto a certo alvará e ele mais uma vez disse não saber do que é que se tratava.  Explicaram-lhe novamente as mesmas coisas que ele já ouvira da outra vez, porém com poucas palavras e de modo mais sisudo o mandaram de volta ao restaurante.  Como não havia alternativa Firmino voltou ao restaurante e explicou tudo mais uma vez ao incrédulo e febril patrão que quase arrancou a peruca, arregalando os olhos e fazendo uma pergunta demasiadamente enigmática e estranha para Firmino:
  - Ih!  Que dia é hoje Firmino?
  - Hoje?
  - É; hoje!
  - Hoje é dia...
  - Dia dezesseis chefe – gritou o cozinheiro purulento que se aproximava trazendo um prato que exalava um aroma suculento para seu chefe que esperava com os dedos cruzados uns sobre os outros sobre a mesa.
  - Quantos eram Firmino?
  - Três.
            O patrão de Firmino parecia ter sido mordido ou picado por algum animal no momento em que ouviu a resposta e levantou-se de supetão.  Foi até os fundos do restaurante entrando pela cozinha e deixando-o atônito sem nada entender.  Depois de alguns minutos voltou aparentando mais calma, sentou novamente à mesa, comeu um pouco da comida e depois encarou Firmino e fez uma cara de quem se recorda subitamente de algo.  Colocou algumas notas sobre a mesa e fitou-o novamente dizendo:
  - Pegue esse dinheiro e guarde com você agora.
            Firmino concordou com um gesto de cabeça mas continuou hesitando e encarando-o até que ele disse com força:
  - Agora!
            Firmino pegou o dinheiro em silêncio e o guardou no bolso da calça.
  - Se eles vierem importuná-lo de novo, dê esse dinheiro a eles, entendeu?
            Firmino aquiesceu apenas com um gesto de cabeça.
  - Então pode ir.
            E lá se foi Firmino para o trabalho outra vez.  Entretanto a desconfiança agora pairava em seu pensamento.  Firmino podia ser simples, mas não era bobo, o que era, afinal de contas aquele dinheiro?  Ele não gostava muito daquilo tudo, as coisas de repente pareciam estar ficando diferentes demais para ele e Firmino não gostava de coisas muito complicadas que fugiam de seu entendimento.  Mesmo obstante seguiu desconfiado debaixo daquele céu tão nublado e imóvel enquanto o vento despenteava seus cabelos.  Transtornava-o o fato de os guardas sempre se preocuparem com a presença dele no calçadão e preocupava-o muito a quantia que carregava no bolso.  Contou seis notas de cinqüenta no bolso e logo concluiu que deveriam ser duas para cada um dos guardas, ou seja, cem reais para cada um deles.  Será que o dono do restaurante estava devendo a eles?  Será que essa quantia era o tal do alvará?  Aquilo tudo não lhe cheirava bem.
            Ao chegar ao calçadão respirou fundo, benzeu-se, deu uma olhada ao redor, depois deu uma olhada no relógio e constatou que faltavam ainda quarenta e cinco minutos para o seu almoço então recomeçou seu trabalho ignorando a fome que já começava a incomodá-lo.  Distraiu-se e quando se deu conta novamente já havia passado quinze minutos do horário do seu almoço e como, “graças à Deus” os guardas não tinham aparecido para incomodá-lo, pôde retornar ao restaurante e almoçar.  Durante a refeição relatou ao chefe que os guardas não tinham aparecido desta vez e que tudo tinha corrido normalmente.  O chefe coçou a cabeça e disse para ele ficar com o dinheiro para o caso de eles voltarem a aparecer mas que, se eles não viessem bastava ele devolver-lhe o dinheiro no fim do expediente.  Depois de descansar um pouco Firmino novamente se pôs a caminho do calçadão enquanto o vento vinha frio pelas ruas e o céu permanecia escuro e fechado.
            Pouco tempo depois, quando Firmino já havia até mesmo se esquecido do incidente da manhã e até mesmo da existência dos tais guardas pelas redondezas; sentiu uma mão forte apertando seu braço esquerdo com muita firmeza.  E antes mesmo que pudesse se virar para ver quem era sentiu alguém tocar seu ombro direito e à sua frente surgiu uma policial loura e baixa que foi logo interrogando-o.  Firmino imediatamente ficou com o rosto vermelho como um pimentão, ficou muito nervoso mesmo!  Ele estava cercado por mais dois outros guardas estranhos e essa policial que o tratava como se ele fosse um marginal.  Os dois guardas, um muito magro e alto, o outro mais baixo, forte, moreno; seguravam seus braços e o encaravam com raiva enquanto a mulher que era um pouco mais baixa que ele, apontava-lhe o dedo na cara e falava sem parar.  Firmino estava tão nervoso que mal conseguia compreender as coisas que a mulher falava para ele mas, tentou manter a cabeça fria e ficou em silêncio olhando para ela que lhe pareceu querer ser homem também.  Enquanto ela falava ele pensava já no dinheiro que trazia consigo e só esperou ela pronunciar a palavra “alvará” , para Firmino responder que tinha, que estava no bolso de sua camisa e que se o soltassem seria fácil entregar para ela.  A mulher parou ao ouvir estas palavras da boca de Firmino, pareceu surpreender-se mas não disse nada, apenas fitou-o nos olhos e neste momento ele pôde perceber que ela suava muito logo acima dos lábios e na testa.  Parecia nervosa, eufórica, esquisita.  Então de repente ela enfiou a mão no bolso da camisa dele e retirou as notas.  As exibiu com sarcasmo e certo ar de pilhéria para os outros dois que riram.  Depois contou o dinheiro, deu cem para cada um e guardou cem com ela.  Deu um pisão no pé de Firmino e se aproximou de seu rosto, encarando-o e disse:
 -  Obrigado.
            Então começaram a arrastar Firmino que começou a se bater e a gritar dizendo que era trabalhador, que só estava trabalhando, que não estava fazendo nada de errado, mas bateram em seu rosto e algemaram-no.  Começou a se formar uma platéia de curiosos ao redor deles (é sempre assim), as pessoas olhavam com curiosidade aquela cena enquanto ele ainda se debatia e gritava como um animal capturado.  E enquanto ia sendo arrastado Firmino também se lembrava de sua família, no desespero lembrava-se de sua mãe, de sua terra natal, sua viola, na injustiça que estavam fazendo com ele, oras; mas por que é que estavam fazendo isso com ele?  Por que o estavam prendendo?  Ele não merecia isso, não merecia ser tratado como se fosse um marginal qualquer.  E pensava no dono do restaurante que não aparecia para resolver aquilo tudo, pensava no maldito dinheiro que os guardas tinham embolsado e falava e gritava e batiam-lhe até que, depois de o terem arrastado por um bom pedaço, chegaram ao camburão.  Mesmo obstante, o pobre Firmino ainda resistia, pois seu coração estava cheio de revolta e ele se debatia, chorava e gritava enquanto os guardas se esforçavam para controlá-lo e dominá-lo, mas ele não se entregava.  Firmino gritava que era trabalhador se debatendo esse machucando e chamando a atenção de todos ao redor até que os guardas o obrigaram a ficar de joelhos e o seguraram pelo pescoço enquanto a policial com jeito de querer ser homem o amordaçou!  Jogaram Firmino dentro do camburão como se ele fosse um criminoso qualquer e arrancaram violentamente com o carro.  Enquanto as lágrimas escorriam de seus olhos toscos, passaram pela rua do restaurante e ele pôde ver o dono do estabelecimento colocando uma placa de “precisa-se” na parede.  Firmino não compreendia o que tinha acontecido e nem aceitava tudo que lhe tinham feito.  Mas tudo que ele podia fazer agora era chorar como chora uma criança.
            Jogaram Firmino numa cela fedorenta de onde pôde ver entre as grades, o tempo se abrindo e o sol aparecendo...então não soube se ele vinha para amenizar ou apenas iluminar sua desgraça.  Mas, naquele momento, soube apenas que seu pai sempre teve razão, pois não choveu naquele dia.

                                                                                                              Morpheus

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

SONETO DE DEZEMBRO

Como flecha varei manhã, tarde e noite e parei;
cravei-me na carne do outro dia
Na velocidade estupefata das horas eu furei
cada momento que inevitável surgia

no tempo ao qual não me dei conta no voo
das figuras e dos fatos em acontecimento
A carne do tempo tem sabor que causa enjoo
e envenena instilando um entorpecimento

Eu só queria ter dito alguma coisa
no momento certo e na hora exata
Como um golpe certeiro que, de uma só vez, mata

Eu só queria ter me dado conta;
em meio ao rebuliço fazer afronta
e saber que tudo se foi como num voo de flecha

                                                                                                Morpheus

sábado, 10 de dezembro de 2011

CONTO PUERIL

            Pela janela do carro onde ele se encostava com ambas as mãos e a ponta do nariz, podia-se ver as casas passando com seus muitos enfeites de luzes piscando e as famílias, algumas delas nas frentes das casas rindo e conversando e tantas ruas e tantas outras casas, cada uma tão diferente mas; de certo modo, um pouco iguais, aquilo tudo era muito divertido de se ver.  E ele podia também sentir, mesmo sem entender muito bem, uma atmosfera diferente naquelas noites quentes de dezembro.  Havia out-doors com grandes letras em néon que; aos olhos do jovem Ruddolf pareciam apenas muito bonitas já que ele ainda não entendia o que elas significavam.  A letra A parecia-lhe uma bocarra sorrindo para frente enquanto que a letra B parecia-lhe um gordinho qualquer e essas observações curiosas o distraiam enquanto eles rodavam com o carro pelas ruas.  O garoto realmente gostava de olhar para as imagens e as letras nos out-doors, nas placas e gostava de observar o movimento nas ruas, os carros, as pessoas, seu olhar era faminto e curioso.  Notou que as pessoas nas ruas ou em qualquer outro lugar pareciam estar num clima diferente, pareciam estar mais contentes, pareciam ter vontade de se reunir e tudo ao redor parecia contagiado por essa alegria incomum. Sem perceber encostou também a boca no vidro o que fez com que este se embaçasse e que fosse logo repreendido por sua mãe que, mesmo estando no banco da frente não descuidara dele. 
            Cada uma das ruas e avenidas pelas quais passaram pareciam ter, para Ruddolf, um encanto próprio.  Cada uma delas era um transbordamento de imagens e de coisas se movendo ao mesmo temo e causando-lhe exultancia, euforia.  Tudo parecia-lhe muito divertido!  Depois entraram numa rodovia e o colorido e a alegria das luzes deu lugar a uma escuridão absorvedora e tenebrosa.  Então ele se deitou no banco e ficou olhando para o teto do carro, ficou observando as sombras se movendo em movimentos bruxuleantes.  Mas após alguns minutos ele já se sentia cansado de fazê-lo e começou a notar novas luzes diferentes iluminando as janelas e invadindo o interior do veículo.  Rapidamente se levantou para olhar através dos vidros.  Estavam agora num estacionamento muito grande que lhe pareceu familiar e estava apinhado de carros naquela noite.  Mesmo assim o pai de Ruddolf não demorou muito até encontrar uma vaga.  Então desceram e seguiram caminhando entre os carros até chegarem à majestosa entrada do shopping que parecia gigantesca aos olhos do jovem Ruddolf.  Ele já havia estado ali outras vezes e reconheceu o lugar tão logo esticou o pescoço pela janela do carro, mas naquela noite tudo parecia estar um pouco diferente.  Fazia calor.  Uma brisa soprava leve e furtiva pela noite.  Aquele vento parecia trazer a cada momento um encantamento estranho, diferente, incomum e Ruddolf pensou a seu modo infantil de pensar que talvez fosse aquilo o tal espírito de natal do qual ouvira falar na televisão e em alguns outros lugares.  As pessoas todas pareciam estar mais felizes e mais sorridentes ou talvez menos preocupadas ou, até mesmo; talvez fossem as duas coisas ao mesmo tempo provavelmente, pensou Ruddolf.
            A entrada do shopping era sempre algo mirífico para o garoto.  Eram tantas coisas para se ver, tantos enfeites e tantas vitrines, todas aquelas lojas com tantas coisas para se comprar e tanta gente, músicas natalinas, muita comida e tudo se movendo ao mesmo tempo e o tempo todo sem parar!
            Logo na entrada ele avistou um papai Noel movendo os braços de modo estranho bem em frente a uma locadora de vídeo games.  Soltou da mão da mãe e disparou correndo até ele.  Tamanha foi sua surpresa ao se deparar então com um papai Noel que, na verdade, era de plástico, movia os braços mecanicamente para cima e para baixo e cantava uma música em inglês da qual Ruddolf nada entendia.
 - Não corra deste jeito Ruddolf! – esbravejou sua mãe tomando-o novamente pela mão.
            Seguiram então pela entrada principal de mãos dadas, o pai de Ruddolf não falava muito e nem parecia se importar muito com qualquer coisa.  Chegaram à uma loja de panos e tapetes.  Ruddolf não compreendia por que sua mãe queria comprar pedaços de panos se, em outras lojas já os vendiam como roupas prontas.  De qualquer modo, sua mãe tinha dessas coisas e aos poucos Ruddolf ia se acostumando com isso, havia momentos em que pensava que talvez um dia, quando crescesse e fosse adulto, talvez fosse capaz de entender melhor essas manias de sua mãe.  Aproveitou um momento de distração de seu pai que havia encontrado um amigo e conversava, para sair andando pela loja.  Sem querer acabou chegando a mesma porta por onde haviam entrado, olhou para fora e avistou de outro lado uma outra loja que parecia ser mesmo muito estranha.  Olhou de volta para o interior da loja e lá estava seu pai rindo com gosto junto de seu amigo, sua mãe com um pedaço de pano verde claro nas mãos parecia indagar algo a uma vendedora.  Olhou novamente para fora, um emaranhado de pernas de adultos numa espécie de dança frenética e; lá do outro lado do corredor a tal loja esquisita.  A curiosidade de ver mais de perto aquela loja e as coisas que ali se vendia somada à audácia infantil tão característica da idade de quatro anos e meio de idade fizeram com que tomasse uma decisão imediata.  Resolveu ir até lá.  Saiu andando sem pensar pelo meio da multidão e foi até a vitrine da outra loja.  Sentiu como se estivesse atravessando um rio, um rio de gente.
            Mas acabou não se impressionando muito com a loja, afinal eram apenas estátuazinhas estranhas de gesso, enfeites em artesanato, artigos para decoração e ele ficou pensando como é que poderia existir uma loja tão sem graça como aquela.  Como é que poderia haver gente idiota o suficiente para comprar coisas tão imprestáveis como aquelas! - pensou Ruddolf.  E foi distraído por esse pensamento que ele seguiu andando e olhando sossegadamente para as vitrines das outras lojas sem se preocupar com nada.  E sem perceber foi perdendo-se maravilhado no emaranhado de cores e formas, sem se dar conta foi sendo tomado por um transe infantil de admiração e continuou caminhando absorto pelos corredores do shopping onde tudo era novidade.  Seu caminhar era incólume e seu rumo totalmente incerto até avistar a alguns metros de distancia o playground, então apertou o passo naquela direção sem pensar em seu pai ou em sua mãe ou em si mesmo.  Sem pensar em nada correu até lá desviando e esgueirando-se por entre as pernas dos adultos.  E quando Ruddolf lá chegou perdeu o sentido do mundo.  Esqueceu-se de tudo e encantou-se com os brinquedos e as máquinas de fliperama e videogames e todas aquelas crianças se divertindo, assim como ele, enquanto o cheiro da pipoca e dos churros se misturavam no ambiente e todos pareciam estar felizes e era como se ele estivesse rompendo a barreira do mundo real onde tudo era sem graça e estivesse, naquele momento, tocando uma nova realidade, uma realidade feérica.  Havia um trenzinho que levava as crianças sobre os trilhos e Ruddolf não entendia por que ele apenas andava sobre aquele pequeno círculo, por que não construíam uma linha maior que atravessasse todo o shopping?  Havia um helicóptero e um disco voador elevados por braços de ferro e Ruddolf não entendia por que eles não voavam de verdade.  Havia uma grande centopéia que também deslizava sobre trilhos e carrinhos de pipoca, churros, algodão doce e muitas, muitas outras guloseimas.  Tinha carros de batida e esses ele entendia por é que batiam uns contra os outros, era divertido.  Um pouco mais ao fundo ficavam os fliperamas e as máquinas de videogames.  Ruddolf correu até lá para ver os jogos, mas os garotos maiores ficavam todos em sua frente, todos muito juntos das máquinas de modo que Ruddolf não conseguia enxergar nada do jogo.  Ele tentou empurrar e se enfiar pelo meio, chegar mais perto para poder ver os jogos, mas um dos garotos maiores o empurrou derrubando-o no chão e disse:
 - Sai fora moleque!  Vai andar na centopéia com a sua mãe!
            Ruddolf caiu sentado no chão e quase chorou enquanto os garotos maiores riam dele.  Chegou a esboçar um início de choro com os olhos se enchendo de lágrimas e o berro vindo pela garganta, mas conteve-se!  Foi forte, trancou a garganta com raiva.  Engoliu em seco, limpou os olhos com as costas das mãos, respirou fundo trancando sua dor e sua revolta no fundo do peito ao mesmo tempo em que um nó se formava em sua garganta.  Levantou-se devagar e limpou as mãos.  Afastou-se receoso.  Saiu andando lentamente de volta para a loja onde seu pai e sua mãe haviam ficado.
            Ia cutucando as unhas, olhando para os dedos com o queixo grudado no peito enquanto uma lágrima teimosa escorria de seu olho esquerdo.  Mas quando chegou até a frente da loja assustou-se e seu choro contido de repente cessou e deu lugar a estupefação ao ver uma mulher trancando as portas da loja onde estavam outrora a mãe e o pai de Ruddolf.  A mulher fechou a porta da loja e simplesmente foi embora conversando com outras duas moças.  O que tinha acontecido com seu pai e com sua mãe?  Para onde tinham ido?  Onde é que estavam?
            Olhou para os lados e viu gente rindo, falando, conversando...mas nada nem de seu pai e nem de sua mãe.  E ninguém naquele lugar parecia vê-lo.  A vontade de chorar estava voltando, sentiu-se incrivelmente sozinho no mundo dos adultos.  Sentiu medo, muito medo.  Um medo que nunca antes havia sentido.  Sentiu medo de ter ficado invisível, pois ninguém por ali o enxergava.  Saiu andando meio sem saber por que, saiu andando a procura dos pais.  E enquanto andava acabou se distraindo de novo e a vontade de chorar passou.  Esqueceu um pouco do medo e se distraiu olhando vitrines.  Notou que as lojas todas já iam fechando uma a uma e começou a pensar no que seria dele se ficasse preso para sempre naquele shopping.  Se ficasse o resto de sua vida sozinho e abandonado entre montras no escuro shopping fechado!  Mas ao mesmo tempo experimentou uma nova sensação de liberdade e imaginou que poderia mesmo passar o resto de sua vida por ali.  Lembrou-se de seu pai dizendo-lhe que não devia temer a escuridão por que a escuridão era tão somente a ausência de luz.  Imaginou-se velho, encanecido, barbudo, maltrapilho, andando à toa pelo shopping, sobrevivendo sentado num daqueles bancos e vendo o povo passar...então pensou; “é; talvez nem seja tão ruim assim!”  É claro, ele era um garoto inteligente, na verdade seria tudo muito fácil.  Principalmente se não houvesse fantasmas e nem assombrações e...era noite, o shopping começava a esvaziar e...logo ia fechar e...e se existissem mesmo fantasmas por lá?
            Esse pensamento o deixou desesperado, seu coração disparou, acelerou os passos, as mãos começaram a suar, suas orelhas estavam pegando fogo, era preciso encontrar a saída o mais rápido possível!  Pensou, puxou pela memória, lembrou do caminho para a saída e pôs-se a correr em direção a ela.  Com todas as suas forças corria movendo-se o mais veloz que podia mas foi ficando cansado.  Logo estava caminhando de novo, embora ainda sentisse medo.  Quando ultrapassou a saída principal do shopping caminhava com passos pesados e estava um pouco ofegante.  Ainda estava um pouco preocupado com sua mãe e seu pai mas estava confiante em reencontrá-los levando-se em conta que já havia se perdido antes e que os reencontrara.
            Finalmente fora do shopping sentiu uma agradável brisa tocar seu rosto.  Sentiu-se um pouco mais calmo apesar de ainda estar sozinho.  Levou a mão à testa enxugando o suor enquanto já olhava para o imenso estacionamento para tentar visualizar seus pais em algum lugar.  Não conseguia se lembrar exatamente onde seu pai havia estacionado o carro então passou a procurar com muita atenção andando pelo estacionamento e perscrutando em todas as direções.  Lembrou-se de que havia deixado no banco traseiro do carro de seu pai um de seus brinquedos, um carrinho verde que costumava levar para quase todos os lugares aonde ia, e passou então a olhar através dos vidros dos veículos mais parecidos com o carro de seu pai até finalmente encontrá-lo.  Ufa, que alívio!  Lá estava seu carrinho verde, lá estava o carro de seu pai, mas onde é que eles estavam?
            Ruddolf aproximou-se do carro devagar, chegou bem perto colocando as mãos no vidro, encostando o nariz e a boca no vidro para tentar observar melhor seu brinquedo no interior do veículo.  Então foi olhando por todo o interior do veículo, observando o assoalho, os bancos, seu carrinho sobre o banco...até seus olhos encontrarem, num momento nunca antes imaginado; outros olhos: negros, totalmente negros.  Redondos, ofensivos, vicerais!  Olhos que não tinham aquelas partes brancas ao redor das pupilas, eram olhos inteiramente pretos!  Eram olhos diferentes, jamais vistos antes.  Na verdade nem mesmo pareciam ser olhos de gente.  Eram olhos de um velho também muito esquisito que estava do outro lado do carro, observando-o através da outra janela com seu grande nariz monstruoso que trazia na ponta uma cabeluda verruga nojenta!  A pele parecia gordurosa e ele tinha uma barba branca manchada de vermelho que, para ele, Ruddolf, pareceu-lhe ser sangue!  A cabeça estava coberta por um capuz marrom que parecia ser uma túnica encardida.  Ruddolf estava imóvel, paralisado pelo medo que sentia ao se deparar com aquela figura bizarra!
            De repente o velho sorri deixando à mostra dentes pontiagudos avermelhados!  E Ruddolf simplesmente sai correndo desesperado de volta para o shopping, morrendo de medo daquele velho estranho.
            Ruddolf correu o mais depressa que pôde, correu de olhos fechados sem parar, sem pensar, sem olhar para trás e quando seu fôlego já estava se esgotando novamente ele acabou trombando com algumas pernas e caiu sentado no chão sem entender muito bem o que acontecia.  Ao abrir os olhos sentiu a felicidade a inundar-lhe novamente o coração.  Sentiu-se incrivelmente feliz, pois as pernas com as quais havia trombado eram as pernas de seu pai e ao lado dele estava sua mãe.  Que alegria!
            Depois de alguns abraços e de uma conversinha voltaram para o carro e; tamanha foi sua surpresa ao constatar que já não havia mais nenhum velho monstruoso por lá.  Então entraram no carro e foram embora.  Ruddolf largou-se exausto no banco de trás.  Suava encostado no banco e ainda observava pela janela.  Afinal, tinha sido uma noite e tanto!  Ficou olhando distraído pelo vidro enquanto o carro ia se distanciando do shopping.  Ele agora se sentia totalmente seguro e mais tranqüilo, mas jamais esqueceria aqueles acontecimentos ímpares.  Descansava apenas enquanto tudo ia ficando para trás, as luzes ao longe, os carros saindo, as calçadas, as pessoas nas calçadas...até que avistou, parado perto de uns latões de lixo, com um saco plástico preto nas mãos, aquele mesmo velho grotesco acenando para ele!
            Porém não disse nada e nem acenou em resposta.  Ficou praticamente imóvel olhando pela janela aquela figura monstruosa e misteriosa que, aos poucos, ia ficando para trás e se distanciando ao longe entre o brilho das luzes, o movimento dos carros e as pessoas que passavam caminhando.      

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

INTOLERANTE

            As brumas e o vento caminham juntos pelo universo.  Diante dos olhos vazios da noite está o véu negro vacilante e silencioso.  O sereno vem soprado pela brisa para cair lentamente sobre os telhados e sobre toda a existência noturna.
            É madrugada.
            A visão se projeta através do véu negro.  Disseminado entre os inúmeros pontinhos de luz da cidade ao longe, estão os ruídos soturnos de uma noite conspícua.  No declive de uma rua (cujo nome ignoramos) há um semáforo medíocre que se fecha num vermelho absolutamente comum para um banal veículo (cujos dados também ignoramos) que se aproxima.  Pode-se ouvir a música proveniente do rádio no interior do veículo a uma boa distância.  O motorista, ao notar o trivial semáforo em vermelho, naturalmente pára, esperando que a luz mude se acendendo num verde esmeraldino.  Não há ninguém atravessando a rua.  Neste momento ele poderia muito bem (e isso teria sido muito melhor para ele) ter ido embora passando pelo sinal vermelho sem que ninguém tivesse consciência de tal infração ou mesmo reprovasse sua atitude com uma abrupta e repentina buzinada.  Na verdade é até mesmo desaconselhável ficar parado num sinal vermelho às tantas da madrugada devido ao risco de assaltos e até mesmo sequestros.  Nos cursinhos de auto escola já se ensinasse algo isto.
            Mas ele pára.
            Logo em seguida se aproxima uma motocicleta Harlley cujo guidão é dominado por um verdugo.  E seu chegar é rútilos prateados e um ronco manso de um monstro semi adormecido.  Tatuagens, botas pretas, colete de couro de cobra, jeans, cavanhaque demoníaco, lenço amarrado na cabeça...  Traz consigo uma espingarda calibre doze num coldre especial junto ao tanque de sua moto!  E como não poderia deixar de ser ele pára logo atrás do carro aguardando que o sinal fique verde novamente.
            No interior do veículo o motorista anônimo balança os braços simulando algumas das coreografias estúpidas da música que ele está ouvindo.  Na verdade ele apenas repete de modo inocente alguns inofensivos gestos débeis.  Dancinhas banais que rapidamente caem no gosto do povo, viram moda e contagiam.  O motorista canta alegremente acompanhando o rádio tal qual uma criança que repete automaticamente tudo o que ouve:

            “dança da bisnaga – é a dança da bisnaga
dança mais – dança mais um pouquinho                                                                                      
come mais –  come mais um pãozinho...”

            De sua moto o algoz ouve e se incomoda.  Ele consegue enxergar através do vidro fumê os braços do indivíduo mocorongo se movendo e imitando as coreografias populares.  O algoz não tem senso de humor, ele jamais se apieda, não tenta compreender, não tolera e nem mesmo tenta ser razoável.  Ele não entende diferenças, não pensa muito na maneira como as coisas acontecem ou como são.
            Ele simplesmente não gosta do que ouve.  Ele apenas não gosta nem um pouco do que vê.  O verdugo olha para um lado e para o outro como se procurasse no pequeno universo daquela rua, uma terceira e latente existência.  Mas nada vê.  Nenhuma alma viva na rua.  Consequentemente nenhuma testemunha.  O algoz é todo hardcore, todo punk-rock, todo metal, todo rock´n roll! Ele saca sua arma e a engatilha.  Mira através do vidro escurecido do carro e aperta o gatilho sem comiseração.
            O tiro estoura o vidro do carro e atinge em cheio a cabeça do motorista!  O carro começa então a descer lentamente a rua.  Parece-me que o pé do motorista estava no freio e como este já não tinha mais vida ou consciência o pé não mais se manteve pressionando o freio.  Desgovernado o carro passa pelo sinal vermelho e ganha velocidade no declive batendo violentamente num muro que existia logo à frente.
            O sinal fica verde.
            Apesar de todo o estardalhaço, de toda a violência do impacto, do tiro, do vidro se desfazendo em milhares de estilhaços e da colisão no muro, a coerência vigente na madrugada da rua sem nome não parecia ter sido afetada, absolutamente!  Então o verdugo, com a excelência de um verdadeiro executor, devolve calmamente sua arma ao coldre e acelera exibindo o ronco selvagem de sua montaria de metal.  E era como uma besta se jactando num uivo metálico!  Mas ainda não convencido totalmente quanto ao êxito de seu disparo, desce com sua moto, aproxima-se lentamente do carro e dá uma olhada.
            Apenas destroços!  Porém o rádio ainda funciona enquanto os restos da cabeça ensangüentada do motorista pende pela janela:

            “ela gostou da bisnaga e agora é a bisnaga
              que ela pensa em mastigar
              vai amassando a massinha da bisnaga
              a massinha da bisnaga...”

            Isso desagrada o algoz.
            Novamente ele saca sua arma e atira destruindo de uma vez o rádio e boa parte do painel do veículo.  Mesmo obstante o algoz não sorri.  Devolve sua arma ao coldre, cospe no veículo e por fim desaparece na escuridão demente.





                                                                                                                     Morpheus

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

NATÁLIA

Vive-se muito ou vive-se pouco
não importa, o que importa é o que se faz

Eu sei, podem até me chamar de louco
por te amar assim demais

e tão de repentemente

mas eu te amo
coisinha pequena e frágil com carinha de joelho

OH!  my second one

Te amo filha
Te amo Natália
e jamais me esquecerei, por mais piegas e repetitivo
que isso possa parecer
Por mais desgastada que possa estar tal frase, de modo que, hoje em dia,
ela parece até que já perdeu o sentido

Mas os sentidos das palavras, ás vezes, não são apenas para se entender
mas para se sentir de verdade

                                                                                                     
                                                                                                    Morpheus